sábado, 25 de setembro de 2010

Os números e as pessoas


Numa interessante crónica de António Perez Metelo, publicada no DN de ontem, pode ler-se o seguinte:


“O PSD, com uma boa dúzia de ex-ministros da sua área política, de líderes patronais e formadores da opinião publicada, preconiza um corte drástico na despesa, quanto antes, como a redução de salários dos funcionários públicos e demais despesas correntes, para acelerar a queda do défice e da dívida e ganhar nova credibilidade internacional.

O Governo e o PS querem fazer os cortes na despesa q.b., disseminando os sacrifícios, para evitar nova recessão e dar tempo às empresas exportadoras para puxarem por um crescimento económico forte e sustentado.”


De forma sintética, parece-me estar aqui bem expressa a “fronteira” que, neste momento, divide PS e PSD de um eventual acordo sobre o Orçamento. O PSD coloca a tónica na redução da despesa a qualquer preço e recusa qualquer aumento de impostos – quando todos sabemos, por exemplo, que uma das medidas que o FMI impôs ao Governo grego, mal chegou a Atenas, foi precisamente o aumento do IVA de 21 para 23%. Que “lógica” tem esta recusa intransigente em procurar recursos também do lado da receita e, simultaneamente, andar há semanas a agitar o papão do FMI? Quererá o PSD que sejam os estrangeiros a impor-nos algumas das medidas que se recusa agora a negociar? Com que intenção?

Creio que esta “dramatização” por parte do PSD visa também abrir algum espaço para a “mediação” de Cavaco Silva, que poderá, assim, surgir junto da opinião pública (em vésperas de certamente anunciar a sua recandidatura a Belém) com uma imagem de “pacificador”. Recordemos que o actual Presidente da República perdeu alguma da sua “aura” aos olhos de algum eleitorado mais conservador, com a promulgação do casamento entre pessoas do mesmo sexo e despenalização do aborto, por ex., e o PSD não deixará de aproveitar este momento difícil para lhe dar “palco” a propósito da aprovação do Orçamento.

Resta, ainda, a Passos Coelho explicar de uma vez por todas como resolveria esta questão orçamental apenas pelo lado da despesa. Com efeito, o PSD e a sua liderança têm fugido a clarificar quais as medidas concretas que defendem nesse âmbito, preferindo “refugiar-se” atrás de vagas intenções e discursos inflamados. Onde cortaria valores tão significativos na despesa sem colocar em causa áreas vitais como a Saúde, a Educação, a Defesa, etc?

Em simultâneo vamos assistindo em vários fóruns a toda uma panóplia de economistas, gestores e ex-governantes próximos dos social-democratas, defendendo medidas como o corte de salários na Função Pública, por exemplo. Cabe agora a Passos Coelho esclarecer de vez se defende a aplicação desse tipo de medidas e qual a percentagem que acha razoável para cortar nos salários de muitos milhares de trabalhadores do Estado, muitos deles ganhando escassas centenas de euros, com sucessivos anos de carreiras e aumentos de vencimentos congelados, etc.

Será esse o factor de motivação para a “reforma do Estado” ou pensará o líder do PSD que as pessoas são meros números e que continuarão a dar o seu melhor…ganhando menos?! Ou (pior ainda) pretenderá alguém regressar a um tempo de má memória em que o “medo” de ser despedido era o factor “motivacional” número um?... Afinal não é também este PSD que pretende flexibilizar e facilitar ainda mais os despedimentos?... E, como canta o Sérgio Godinho, “isto anda tudo ligado”…

Obviamente que há ainda margem para cortes na despesa do Estado em mil e um desperdícios que podem (e devem) ser eliminados, incluindo o facto escandaloso da acumulação de várias (e significativas!) pensões de reforma, pagas pelo erário público, por parte de alguns altos quadros, ex-gestores públicos, ex-governantes, etc, sendo que alguns deles até se encontram entre os que agora surgem a defender, com a maior das tranquilidades, os tais cortes de salários na Função Pública… Como se diz em terras de Vera Cruz "o pão dos pobres quando cai é sempre com a manteiga para baixo"!...

Estejamos atentos às cenas dos próximos capítulos – sendo certo que Portugal e os Portugueses têm que estar acima de tudo e de todos os interesses político-partidários, muitos deles visando apenas a satisfação de alguns à custa dos sacrifícios de todos, sobretudo daqueles que vivem do seu trabalho e já pouco recebem no final de cada mês!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ontem, hoje e sempre...



"A soberba nunca desce de onde sobe, mas cai sempre de onde subiu"



Francisco Quevedo


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Reflectir à Esquerda


Com a devida vénia transcrevo um interessante texto do Prof. Dr. Joffre Justino, Director Pedagógico da Escola Profissional Almirante Reis e que, em meu entender, merece alguma reflexão nestes tempos conturbados e onde urge quebrar dogmas e construir caminhos de futuro:


"O Fim do Modelo Cubano…


Fidel Castro terá dito que o modelo socialista de Cuba se encontra ultrapassado e está a ser considerado por uns tantos, por isso, como não estando, já, são, (foi-o dito por Juan Carlos Hidalgo do Center for Global Liberty…),por ter afirmado tal.

No entanto, 4 dias depois, a 14 de Setembro, a Central de Trabalhadores de Cuba e o Governo Cubano, ( na lógica comunista trabalham em parceria, ao contrário do que sucede nos países “capitalistas”, às centrais sindicais comunistas…que ignoram a concertação social), anunciavam que nos próximos 6 meses iriam ser despedidos do Estado 500 000 cidadãos e cidadãs, 10% da população activa, que auferem salários da ordem dos 20 dólares em média.

Cuba tem uma população activa de 4,9 milhões de Pessoas e destas trabalham no Estado todos menos 148 mil, isto é 4,752 Pessoas.

Entretanto, a economia de mercado cubana foi crescendo, desde o suicídio da URSS (e, depois, de quase todos os restantes países comunistas), à custa de um único sector – o do Turismo – e com fortes apoios económicos de países, hoje infelizmente também em forte crise, como a Venezuela e, em muito menor monta desde o findar da Guerra Civil, Angola.

Não é que Cuba não tenha andado no mercado mundial.

Andou.

Por exemplo exportando mercenários, militares, para guerras civis como a de Angola e da Etiópia, mas também médicos, em maior monta e mais recentemente para a Venezuela, mas para outros países também.

E fê-lo, na minha opinião, em pura lógica de economia de mercado, capitalista portanto, só que com o negócio controlado pelo Estado, em capitalismo de estado.

Mas, entretanto os tempos mudaram.

E, ainda por cima, o Turismo não se tem mostrado suficiente, por razões óbvias – Cuba para alimentar o Turismo tinha uma enorme despesa pública com a Importação de produtos vários que sustentavam e são essenciais para sustentar o Turismo, já que a economia cubana, dominantemente estatizada, é de uma baixíssima rentabilidade e produtividade .

A central sindical cubana, comunista, aliada da portuguesa CGTP, segundo a comunicação social, refere que, “O texto prevê a redução "de vultuosos gastos sociais", a eliminação de "subsídios excessivos", o "estudo como fonte de emprego e aposentadoria antecipada".”, o que como se vê equipara a comunista Cuba, em maior monta diga-se, às dificuldades, que Portugal vive perante esta crise mundial e que o PCP, o BE, a CGTP, em Portugal, denunciam, como sendo da culpa do actual governo.

Referindo o exagero de funcionários públicos, em nº, os maus hábitos que tal gera na economia, a mesma central sindical afirma que estes despedidos do Estado serão integrado no sector “não estatal da economia”.

Sem mais.

Sem afirmar se tal acontecerá a todos, não o pode fazer, quando tal acontecerá, não o pode fazer, e em que circunstâncias tal acontecerá, não o pode fazer.

Porque está numa dominância de economia de mercado.

Assim, a economia de mercado em Cuba, tenderá, provisoriamente é certo, mas tenderá, a reduzir-se, pequena que ainda é, economia de mercado bem frágil, (salários de 20 US dólares geram, claro, uma minúscula economia, interna, de mercado), o que gerará grave desemprego, para 10% de cubanas e cubanos, (basicamente, o mesmo nº de Pessoas Desempregadas que existem no capitalista Portugal).

Vivemos numa economia Global, e gostamos – dos telemóveis globais, e globalmente fabricados, dos automóveis globalmente fabricados, dos electrodomésticos globalmente fabricados, da mau de obra barata que recebemos com a Imigração e enviamos com a Emigração, assim como do ananás brasileiro, da manga venezuelana, etc,… Gostamos.

Mas, ao mesmo tempo, queixamo-nos – do Desemprego que as deslocalizações geram, do predomínio da economia financeira, imaterial, sobre a material, com a tendencial redução da Produção Nacional, dos Imigrantes que temos, etc.

A divisão internacional, comunista, do trabalho, base da economia cubana, base do modelo cubano que Fidel Castro assumiu, morreu, com o suicídio da URSS.

Ela tinha atingido o limite de crescimento possível, com a tecnologia existente, e morreu.

Marx explicou tal há cem anitos….

O Socialismo não se constrói em economias fechadas, (dai a Internacional, lembram-se?), nem fora do contexto da dinâmica das Pessoas, e o comunismo que conhecemos estatizou, limitou a criatividade e a dinâmica individual, e teve, por isso, de falir.

E o modelo de Cuba, dramaticamente, falirá e gerará ainda mais Desemprego e crise, ou, em alternativa, terá de mudar rapidamente.

Que, como se vê, é o que o governo comunista de Cuba deseja, mesmo que tal origine 10% de Desempregados…como em Portugal acontece.

O tempo do Socialismo global ainda não chegou, a tecnologia existente é ainda insuficiente.

Mas, mais que a tecnologia, é a estrutura cultural e mental das Pessoas, egoísta que é, que não o permite.

Marx também já explicou tal há já cem anos, ao criticar os proudhonianos de então, hoje os comunistas tipo PCP e populistas tipo BE.

Marx sempre referiu que o Estado não é o comunismo, é, tão somente, um mero instrumento de gestão, tendo criticado duramente os que imaginavam, ao seu tempo, o Estado a ser comunista…

Estamos com 210 milhões de desempregados no Mundo, mais 30 milhões que em ano anterior e toda a gente a começar pelo director geral do FMI já entendeu que o Mundo está em nova mudança.

Pelo que as receitas antigas deveriam ser enterradas e deveríamos pensar em novas receitas.

Em Portugal o governo, como os restantes, procura os novos caminhos que os economistas, bruxos que são, e por o serem, claro, desconhecem.

Reduzir a divida publica?

Tal aumenta o Desemprego, diminui a capacidade de consumo, reduz o Mercado, gera falências, e um ciclo maior de crise.

Aumentar a divida publica?

Tal gera desconfiança nos ditos mercados financeiros, aumento dos juros dos empréstimos e mesmo dificuldade em os obter.

Resta a ideia de gerir sustentadamente a divida pública.

Milimetricamente, que é o que se tem feito, para ir dinamizando a economia.

No Brasil foi mais fácil porque a Esquerda dominante, PT, PCdoB, sabiam que só podiam gerir assim a solução da crise em que o Brasil estava.

E, sustentadamente, só pode ser, gerar uma situação em que 30 milhões de brasileiros saíssem do limiar de Pobreza.

Aumentando o mercado pelo aumento da capacidade de consumo.

Ora quando se aumenta o mercado, aumenta a Riqueza também para os empresários que produzem e distribuem.

É pois pura manipulação, um texto de um tal Clóvis Rossi, que disse, à PCP/BE, no Publico, que, “Os ricos estão mais ricos, os pobres menos pobres e a desigualdade persiste”.

Porque na verdade o Brasil era “historicamente um país de obscena desigualdade social” e hoje, é um país onde a distribuição dos rendimentos se iniciou.

Pegando no índice de Gini este intelectual brasileiro lá tem de reconhecer que os dados que usa, de 2003, são anteriores a Lula.

No entanto, a verdade é absoluta, o aumento do mercado, gera mais lucros para as empresas que, não serão no seu todo, redistribuídos de imediato.

Mas foram-no em parte, melhorando as condições de mais de 30 milhões de brasileiros.

E tal aconteceu porque a Esquerda não anda nos caminhos que interessam sim à Direita e, sabendo que os ricos ganham com o aumento do mercado mais que os pobres, interessam-se sim com o aumento da riqueza entre os pobres.

É a posição do PCdoB aliado de Lula,por exemplo.

Um partido diga-se de tradição bem revolucionária.

Valia a pena que o PCP, o BE, a CGTP aprendessem com o que se passa em Cuba e com o que se passa no Brasil.

Porque a economia não são nºs, são Pessoas e Motivações de Pessoas.

Pelo que urge mudar esta mentalidade de um criticismo reducionista, derrotista, por forma a em conjunto, solidariamente, superarmos esta primeira Grande Crise da Globalização.

Porque Fidel tem mesmo razão, (e eu guevarista que fui, nunca fui castrista), não está de forma alguma maluco, e o modelo cubano “já não funciona”, de verdade.

E um bom leader assume.

Esperamos, nós os de expressão portuguesa, que o PCP e o BE o assumam também.



Joffre Justino"

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Democracia "controlada"?...

Os ministros de Finanças da União Europeia concordaram hoje em submeter os planos futuros de Orçamento de Estado dos países membros, para revisão pela Comissão Europeia, no âmbito de um conjunto de medidas para reforçar as regras orçamentais da UE.

Esta medida que, aparentemente, visa dar alguma "coerência" aos esforços de consolidação financeira exigidos aos diversos países membros, ganha alguma perversidade quando, segundo as notícias, tal "obrigação" deve ser prévia à apresentação e votação do mesmo Orçamento de Estado nos parlamentos nacionais.

Seja qual for o ângulo pelo qual se aborde esta "novidade" não resta a menor dúvida que se trata de uma clara perda de soberania e, de alguma forma, limita-se claramente a aplicação de programas políticos apresentados ao eleitorado, assim como das intervenções dos partidos na oposição aos Governos eleitos. O que acontecerá, por exemplo, a um Orçamento de Estado "aprovado previamente" pela União Europeia mas rejeitado maioritariamente em determinado Parlamento?... Quem se responsabiliza, perante o eleitorado, pelas orientações estratégicas de um Orçamento que seja "imposto" pela UE?...

Estejamos atentos ao que por aí vem...

domingo, 5 de setembro de 2010

"Solércia" na Regaleira

Até ao próximo dia 10 de Outubro ainda vai a tempo de assistir a mais um magnífico espectáculo do Grupo Tapafuros (que comemoram, este ano, 20 anos de existência) - trata-se de "Solércia", a partir de vários textos de Gil Vicente e uma vez mais encenado nos misteriosos Jardins da Quinta da Regaleira.

De Quinta a Sábado o espectáculo tem início às 22h e aos Domingos às 21h.