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sexta-feira, 26 de abril de 2013

A história de Filomena

No passado dia 24 de Abril tive o prazer de estar presente na 9ª edição das Jornadas da EPAR (Escola Profissional Almirante Reis), do meu amigo e camarada Joffre Justino. 

Para alguém, como é o meu caso, que trabalha em gestão de Pessoas e Formação há cerca de 30 anos, é sempre gratificante assistir a uma iniciativa onde jovens estudantes trocam experiências e ideias com profissionais das áreas onde profissionalmente poderão vir a atuar, fazendo-o com alegria genuína, com orgulho pelo caminho percorrido e onde fica bem patente o AMOR (sim, a palavra é essa) que sentem pela sua escola e pelos seus professores. 

Gostaria, no entanto, de destacar uma das intervenções que ali ouvi - a da jovem Filomena, natural da Guiné e que atualmente exerce a profissão de Assistente Social. 

A Filomena contou-nos (de uma forma e com uma luminosidade no rosto que são impossíveis de descrever por palavras) o que tinham sido estes seus 28 anos de vida, desde que viera para Portugal, com os pais, com 4 anos de idade. Falou-nos dos seus tempos difíceis de menina (e da sua irmã) dormindo nos corredores do Metro de Lisboa com os pais ou nas barracas sujas e quentes do Sul de Espanha onde se amontoavam os trabalhadores rurais e por onde também passou com a família. Falou-nos de um tempo (muito) difícil onde nem entendia porque lhe chamavam "preta da Guiné", logo ela que nem se lembrava sequer da terra onde nascera, porque dali saíra cedo. Contou-nos como ela e a irmã foram abandonadas pelos progenitores e acabaram a saltitar de instituição social para instituição social. Mas, sobretudo, relatou como entendera cedo que precisava de ter objetivos bem definidos na vida e lutar para os alcançar, sem se deixar tolher pela falta de dinheiro, de condições ou de esperança. Por isso logrou ser a melhor aluna da sua turma quando percebeu que precisava de obter "aquela" bolsa de estudo para poder ir estudar para a Faculdade e como, ao longo do tempo, conseguiu apoios para ir estudar no estrangeiro, conhecer outras pessoas, outras culturas e tornar-se "nesta" Filomena que ali silenciou a plateia com a sua presença simples mas tão gratificante. 

Especialmente tocante o momento em que evocou o "regresso" à "sua" Guiné, depois de perdoar a mãe que a abandonou e fazer, com ela, a viagem de carro desde o Norte de África até à terra natal. Nesse regresso a Filomena entendeu que ali era o seu lugar - por mais que viajasse ou trabalhasse noutros pontos deste Mundo. Percebeu-o pelos cheiros, pelo calor, pela brisa, pela impressão de que já ali tinha estado e tudo aquilo tinha ficado impregnado no seu sangue. Decidiu ajudar e criar uma organização para ajudar mulheres que trabalham os campos, sendo elas próprias a gerir os apoios recolhidos e a disseminar os conhecimentos adquiridos. 

O tempo passou depressa ao ouvir a Filomena. Lembrei-me de um certo vendedor de banha da cobra que o Governo contratou recentemente para divulgar um programa de empreendedorismo para jovens - e de como a Filomena lhe daria "um baile" de simplicidade, determinação, liderança, empenho e prazer de viver. Ela, que tinha todos os motivos do Mundo para cair numa depressão profunda - enxugou as lágrimas que certamente chorou e fez delas um mar de oportunidades. Ela, que podia ser azeda, amarga, triste e derrotista - soube perdoar, soube fazer do pouco imenso e transformou-se na borboleta que talvez ninguém esperasse. Aos 50 anos de idade, eu aprendi imenso com a Filomena, naquela manhã, e saí das jornadas da EPAR com a sensação reforçada que Deus se revela aos Homens precisamente nestas coisas.

sábado, 13 de abril de 2013

"Creator Spiritus"

Há coisas que não se explicam. Porque não conseguimos. 

Então foi assim: num momento estava a ouvir "Creator Spiritus", de Arvo Pärt, pelo puro prazer de escutar um compositor que admiro (não sou especialista, nunca serei, apenas tento ser "ouvinte" e já não é pouco...). A Páscoa aproximava-se e é um tempo em que (necessariamente) evoco a partida do meu pai deste patamar de existência - lembro-me de chegar ao trabalho na 2ª-feira seguinte ao Domingo de Páscoa desse ano de 2007 e receber a chamada telefónica que me informou da sua partida. Por isso ouvia esta música e mil imagens de meu pai me passavam pela mente e do "acaso" alguém me falou do acidente ocorrido com pessoa que ambos conhecíamos, mas com quem eu não tinha relação de amizade - em algumas circunstâncias teríamos, até, estado em "campos opostos", naquelas "discussões" surdas que tecem mil equívocos e se fundam mais no que ouvimos de outros do que daquilo que realmente sentimos a respeito de alguém. Que estava no hospital, para operação. 

E a Páscoa ali a chegar, na esquina dos dias... 

E volto de novo ao terreno daquelas coisas que não sabemos explicar mas que, do "nada", nos impelem a "ter que fazer" - porque "Creator Spiritus" me envolvia e de súbito relembro o grande Conhecimento e Amor daquela pessoa pela Grande Música, certamente continuaria a ouvi-la, fosse de que forma fosse, na cama de hospital onde aguardava intervenção cirúrgica. Um sinal?... Porque é que alguém me falaria do acidente, logo a mim que nem sou amigo, nem próximo? Porque me apeteceu "regressar" a Pärt, logo eu que não sou especialista, apenas o ouvinte ocasional?... 

Há coisas que - efectivamente - não se explicam. Resolvi contactar com a pessoa em questão através da única forma que tinha - pelo Facebook, em privado. E não foi pelo acidente, nem pela operação, nem pelo Domingo de Páscoa que se aproximava, nem pela música - e foi por tudo isso, pelo "apelo interior" que é a estrada para Damasco quando menos esperamos e o clarão na alma que nos "cega" devolvendo outra "visão" das coisas e dos homens. 

Temi que a pessoa em questão não entendesse. Talvez nem respondesse. Estaria no seu pleno direito. Assim não aconteceu, felizmente. E, no meu Domingo de Páscoa, celebrei uma vez mais esse imenso Mistério da morte como princípio de Vida - e ganhei um novo amigo.

domingo, 10 de março de 2013

Lutar!

Muita gente diz: "Lutar para quê? Já basta de luta, o que é preciso é trabalhar...". 

Ouvimos isso nas ruas, no café, no táxi, nas lojas. Muitos dos que o dizem são trabalhadores, muitos deles mal pagos, desesperados com o dia a dia mas completamente "alienados" por um discurso habilmente repetido através dos "media", de alguns agentes sociais e políticos, de "fazedores de opinião", que os manipulam sem que os próprios se apercebam de tal. 

Sem "luta" estaríamos na época da escravatura - e parece ser para aí que alguns nos pretendem conduzir...

Sem "luta" não existiriam coisas agora tão "banais" como ordenado no fim do mês, descontos para a reforma, férias pagas, assistência na Saúde. 

A Revolução absoluta e romântica só existe nos filmes - mas pequenas "revoluções" acontecem no dia a dia e muitas vezes nem nos apercebemos disso. Quando se luta e se evitam despedimentos. Quando se protesta e se evitam encerramentos de empresas. Quando se combate e se obtém o respeito por direitos básicos. 

Eu não quero a felicidade para quando já estiver morto - quero-a AGORA para mim, para os meus e também para todos quantos trabalham, vivem do seu trabalho e querem ter apenas uma vida digna. 

A Direita diz que "não há almoços grátis", colocando a tónica no valor do dinheiro - eu prefiro dizer que não há felicidade sem luta, ainda que o preço a pagar possa, por vezes, ser a própria vida, como a História nos demonstra.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O limite

Qual é o limite?... Qual é o ponto de ebulição da dignidade de um povo?...

Muitos dizem: "vivemos em Democracia, logo não se justificam os protestos em que a violência está latente". Concordo. Mas a contrapartida para que os cidadãos aceitem esse "contrato psicológico" em que o voto é a "arma", passa pela coerência das propostas apresentadas em campanha, pelo seu cumprimento e pela capacidade dos partidos que governam de estarem constantemente recetivos aos diversos sinais da sociedade.

Ora, o que se passa hoje em Portugal? Temos dois partidos no Governo que têm vindo a aplicar uma agenda que jamais foi apresentada durante a campanha eleitoral - antes pelo contrário, foi garantido (em vários aspetos) precisamente o contrário do que está a ser feito. Simultaneamente, percebe-se que essa "agenda" não tem fim, nem limites - é insaciável, é destruidora, é desenfreada na sua sanha de empobrecimento e ataque às bases de uma vida digna através do Trabalho. Num dia anuncia-se um Orçamento com impostos brutais e no outro, sem tempo sequer para respirarmos, já percebemos que vêm aí mais sacrifícios, cortes, despedimentos, miséria, tudo isto anunciado com a frieza absoluta dos bombardeamentos sistemáticos num estado de guerra.

Reagem os cidadãos, civicamente, protestando da única forma possível, nas ruas - e praticamente nada se altera. Pior - há até quem achincalhe tais protestos, os considere mero folclore, orquestrado pelas oposições, os diminua, os ignore olimpicamente.

E a questão surge de novo - qual é o limite?... Qual o ponto fulcral em que o desespero galga a racionalidade? Qual o momento exacto em que a revolta se transforma em revolução?

A Democracia não é uma rua de sentido único - para que os cidadãos respeitem as suas regras, é necessário que sintam que existem limites que também jamais serão ultrapassados pelo Poder. Ora esses limites foram ultrapassados há muito e há quem continue a pretender ultrapassá-los ainda mais. Se não há limite para os "sacrifícios" impostos - como poderão alguns querer que exista para a reacção das pessoas? Se aquilo que se promete não é cumprido - como podem os governantes apelar para a "responsabilidade" dos governados? Se ninguém escuta o uivo que ecoa no vento e que percorre todas as ruas e que desfaz todas as certezas - como podem alguns apelar ao "bom senso"?...

Digam-me, por favor - qual é o limite?...

Necessitaremos de ver as tropas de um país estrangeiro a cruzar as nossas fronteiras, agora que a força do dinheiro já nos mantém sob o jugo de outros, daqueles que nem elegemos mas que mandam nas marionetas que temos por cá? Necessitaremos de ser ainda mais humilhados, mais roubados, mais reduzidos ao papel de meros números num relatório e contas?...

Qual é o limite para nos sentirmos de novo levantados do chão?...

sábado, 13 de outubro de 2012

Uma fábula...


Era uma vez um velho, muito vaidoso e muito rezinguento, que morava no alto de uma serra, perto de uma cidadezinha muito bonita e pitoresca.

Todos os dias o velho saía de casa à procura de algo de que pudesse dizer mal – se estava sol, queixava-se do calor; se chovia, queixava-se de ter os pés ensopados; se o Governador mandava podar as árvores, queixava-se da falta de sombra; se as crianças riam alto, queixava-se do ruído…

Para além de se queixar de tudo e de nada, o velho considerava-se a pessoa mais culta ao cimo da terra e desdenhava de todos os outros, considerando-os uns analfabetos ignorantes. Apenas permitia junto de si, em certas tardes em que servia chá na sua sala cheia de calhamaços e velhos discos de vinil, outros velhos e velhas amigas que o adulavam e elogiavam continuamente, enquanto trincavam bolachinhas e bebericavam chá.

“Meu caro, não há ninguém tão erudito como você nesta cidade e arredores!” – dizia um.

“Na cidade e arredores? Eu diria no continente todo!” – lançava outro.

“Meus amigos, atenção que em todo o Mundo duvido que haja mesmo alguém com tanta cultura, com tanta argúcia e com tanta capacidade de crítica!” – terminava um terceiro, servindo-se de chá.

E o velho ouvia e sorria, deleitado com tanta adulação e confortável naquele seu pequeno Mundo onde era rei e senhor…

Um dos alvos preferidos do velho era o Governador, porque em tempos lhe tinha negado a nomeação para Director Geral dos Arquivos Imperiais, algo que ele sempre considerara como seu – afinal, não era ele o homem mais culto, mais requintado, mais conhecedor de tudo e de nada, que existia naquela cidade?... Mas o Governador, temendo ter que aturar tanta rezinguice diariamente, preferiu dar o lugar a outra pessoa, facto que o velho jamais perdoou.

Desde essa altura passou a procurar as mínimas minudências para denegrir e atacar o trabalho do Governador. Assim, nas suas passeatas diárias, para além de embirrar com tudo e com todos com quem se cruzava, lá ía tomando notas, num bloquinho, das mil e uma ninharias com que poderia chatear o Governador, quer fazendo reclamações constantes nos serviços respetivos, quer escrevendo crónicas quase diárias que imprimia e colocava nas caixas de correio da cidade.

Certo dia, cansado de tanta queixa do velho e temendo que a população da cidade começasse a dar-lhe crédito e ainda o fizesse perder as eleições próximas, o Governador decidiu mandar chamá-lo para uma conversa pessoal.

O convite lá seguiu para casa do velho e este, entre o surpreendido e o curioso, compareceu ao encontro.

Sabendo o quão vaidoso era o velho, o Governador começou logo por saudá-lo com elogios sem fim:

“Muito obrigado por ter vindo, meu caro amigo, a luz da sua inteligência ilumina todo o meu palácio!”

“Obrigado… - replicou o velho – mas certamente o sr.Governador não me chamou aqui para me tecer elogios…

“Caro amigo, não existem elogios suficientes para a sua elevada craveira! O senhor é o farol moral da nossa cidade, a enciclopédia viva da nossa História, o anjo protetor face a todos os abusos!” – lançou o Governador enquanto mirava a reação do velho, que já começava a sorrir, vaidoso e inchado que nem um perú.

“Mas vamos ao que interessa, caro amigo – prosseguiu o Governador – Chamei-o aqui porque decidi propor ao Conselho Imperial de Comendas e Foguetório que o meu caro amigo receba a Ordem da Mais Elevada e Impressionante Inteligência, como corolário de tanta preocupação e sugestões que o senhor sempre procurou dar para melhoria da nossa cidade!...”

O rosto do velho iluminou-se! Ele teria ouvido bem?... A Ordem da Mais Elevada e Impressionante Inteligência?!... Algo que ele ambicionava há anos e que ninguém jamais recebera?... Mais - algo que ele considerava ter sido criado especialmente para si, porque não existia ninguém mais inteligente e culto naquelas redondezas?...

Tentando conter-se lá respondeu:

“Fico-lhe agradecido, sr. Governador. Obviamente que sei que mereço essa distinção e muitas outras, mas não posso deixar de lhe agradecer, claro..”

“Ótimo!” – exclamou o Governador – Mas gostaria apenas de lhe pedir uma coisa, muito simples, mas que faz parte da atribuição desta Ordem…”

“Sim?... Diga, então…” – respondeu o velho algo desconfiado.

“Quero que passe a usar a faixa da ordem, todos os dias, sempre que sair de casa e para que todos a vejam e o saúdem …” – disse o Governador.

O velho já mal conseguia disfarçar a vaidade que lhe saltava por todos os poros, já esquecera a anterior desfeita do Governador, todo um novo Mundo de bajulação se abria a seus pés!...

“…e – prosseguiu o Governador – em conjunto com o uso da faixa, terá também que passar a usar estes óculos, todos os dias, e sempre que sair de casa.”

E estendeu ao velho um par de óculos escuros.

O velho agarrou nos óculos e experimentou-os. Não conseguia ver rigorosamente nada!... Não eram uns vulgares óculos de sol, porque alguém pintara de tinta negra as lentes e nada se conseguia ver quando eram colocados…

“Que tal, meu caro amigo?...” – perguntou o Governador.

O velho ía a dizer que não conseguia ver nada mas entretanto o Governador prosseguiu:

“Espero que se sinta bem, porque as regras dizem que ninguém pode usar a faixa da Ordem se recusar usar os óculos ou, pior ainda, se disser que nada consegue enxergar com eles, porque são construídos de um material especial e apenas os iluminados, as grandes inteligências, conseguem ver o Mundo através destas lentes…”

O velho calou-se. Obviamente que não ía dizer que não conseguia ver nada – era o que faltava, perder aquela oportunidade única de obter a comenda mais desejada!...

“Vejo magnificamente, sr. Governador! Não se preocupe. Marque a data para a cerimónia de entrega da Ordem, que cá me apresentarei!” – atalhou o velho.

E assim foi.

O Governador organizou uma grande festa para entregar a faixa da Ordem da Mais Elevada e Impressionante Inteligência ao velho, que fez um longo discurso de 3 horas, onde se auto-elogiou largamente, perante a estupefação de uns e a bajulação de outros. A cidade engalanou-se e o velho inchou como um balão prestes a rebentar…

A partir desse dia o velho passou a sair de casa sempre com a faixa da Ordem atribuída ao peito e os respetivos óculos escuros. Obviamente que nada via e por isso tinha que caminhar muito devagar e tentando agarrar-se às árvores e casas por onde passava, tentando orientar-se. Nunca mais levou o bloquinho para recolher notas de maledicência e, quer as coisas estivessem bem ou mal na cidade, terminaram as suas queixas e as caixas de correio nunca mais foram inundadas com os seus panfletos de protesto contínuo.

Impante e completamente cheio de si, o velho resignou-se a ser “cego” quando saía de casa todos os dias e o Governador passou a ter menos aquela voz incómoda a massacrá-lo, pelo que, afinal, até podemos considerar que todos ficaram felizes com o negócio…

Moral da história: vocês sabem qual é, basta que tirem esses óculos escuros com que estão a lê-la…

domingo, 17 de junho de 2012

Português!

apesar da crise,
apesar da seca,
apesar daqueles que me querem
domar,
apesar de tudo,
apesar de nada,
apesar do vento, da chuva
ou do ar,
apesar do medo,
apesar do aperto,
apesar da pistola apontada
à cabeça,
apesar da miséria,
apesar da vergonha,
apesar da alma que vagueia
e tropeça,
apesar da tez,
apesar do feitio,
apesar da fome que se instala
na praça,
apesar dos erros,
apesar das glórias,
apesar da ânsia que se agarra e
não passa,
apesar do grito,
apesar da reza,
apesar da Grécia,
apesar do cerco,
apesar da raiva,
apesar do arnês,

nascia de novo
e era Português.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Obviamente...


Sinais dos tempos que correm. Tempos propícios à expansão do medo, da insegurança, do credo na boca. Um desejo cada vez mais assumido, por parte dos detentores de Poder, de regressarem, rapidamente e em força, à época em que os homens se encostavam à parede da Igreja e o capataz escolhia, a dedo, aqueles que, nesse dia, teriam direito a trabalhar arduamente para assegurar umas moedas.

Passos Coelho, Primeiro-Ministro, já anunciara a Boa Nova – o desemprego é uma “oportunidade” e o trabalho por conta de outrem é um “pecado” a que devemos renunciar. Os nossos jovens serão todos empresários, empreendedores, gurus, CEO´s – nada do revoltante trabalho honesto e esforçado em empresa alheia, na mira do salário seguro e da vidinha equilibrada, coisas a que teremos que renunciar em nome do Progresso e por imposição da troika. Nada de planear a vida – será o que Deus Nosso Senhor Quiser, após aprovação da Srª Merkel, obviamente. Hoje há conquilhas – amanhã não sabemos e entretanto alguns continuam a comer tudo e a não deixar mesmo nada, nem sequer o direito a andarmos de cabeça erguida.

Por estes dias colocou-se mais um tijolo neste novo muro que separará os “eleitos” (os que souberem viver com a indefinição como regra e o “ámen” como resposta à medida) e aqueles que ousarem continuar a acreditar que a Vida de quem trabalha tem que ser mais do que renúncia, sacrifício e austeridade para que a alta finança internacional saia, triunfante e impoluta, do “buraco” onde a sua ganância a enfiou. Por estes dias, um senhor que se chama Paulo Azevedo e é filho de um outro senhor que se chama Belmiro de Azevedo e que teve que fazer o imenso esforço de completar um curso superior e ter depois emprego garantido vitaliciamente no empório de seu poderoso progenitor, o que, como se sabe, é façanha digna de uma epopeia moderna sobre o empresário lusitano e lhe deve ter custado muito sangue, suor e lágrimas alheias – pois este senhor, o Excelentíssimo e Digníssimo CEO da Sonae, afirmou perante um grupo de jovens candidatos a um estágio no Paraíso terráqueo, segundo reportado na Comunicação Social, que “na empresa trabalha-se mais do que 8 horas por dia e não há lugar para mandriões”, sendo que tal só acontece “pela vontade de ir à frente” e porque, na SONAE, não “têm a ilusão de que o dinheiro é o mais importante”.

Responsabilidade social? Conciliação da vida familiar com o trabalho? Respeito pelos horários de trabalho? Qual quê, qual carapuça! Eis o empreendedor que o Dr. Passos Coelho tanto anseia ver em cada jovem português! Em vez de rostos angustiados com a falta de emprego e os projetos de vida adiados “ad eternum”, eis o rosto feliz e sorridente dos novos escravos, pedindo para levar mais pedras ao ombro, para que os chicoteiem mais, para que lhes neguem uma sede de água, tudo para que o Faraó lhes conceda o privilégio de um simples olhar, de um esboço de sorriso, de um aceno de aprovação, face ao inaudito (e gratuito) esforço! Depois da genial campanha de descontos do Pingo Doce, só nos faltava mesmo uma nova campanha “Vamos lá ver quem é que consegue trabalhar mais horas seguidas de borla e até cair” e teremos hordas de desempregados a correr desalmadamente, não o duvido, porque o Homem é aquilo que as circunstâncias definem e o Mundo está negro como carvão.

Não há lugar para madraços na Nova Ordem! E mesmo os velhos e doentes serão tolerados de acordo com limites máximos de encargos para o Estado a definir em cada ano civil – os que “sobrarem” que se conformem, é assim a Vida, ou pelo menos esta que temos, face àquela que nos foram roubando gradualmente.

Aposto que, feitas tão excelsas declarações, o CEO da SONAE, Sua Excelência Dr. Paulo Azevedo, certamente se encaminhou para a paragem de autocarro mais próxima para apanhar  transporte que o levasse para o resto dos seus afazeres diários e regressará, já noite dentro, ao seu modesto apartamento com 15 anos nos subúrbios de Lisboa, 12 horas depois de ter iniciado o seu trabalho, onde degustará uma simples sopa, enquanto pensa, preocupado, como irá pagar o IMI e as propinas do filho, agora que lhe cortaram o magro vencimento, assim como os subsídios de Natal e de Férias… Afinal, como ele próprio afirmou a jovens que anseiam por um simples estágio e que foram brindados com uma lição de Filosofia de Vida de alguém que, aparentemente, sempre comeu o pão que o Diabo amassou (e não me refiro a qualquer padeiro dos hipermercados Continente, que fique claro), já basta da ilusão de pensar que o dinheiro é o mais importante –  obviamente…


sexta-feira, 18 de maio de 2012

"É o consumo, estúpidos!..."


Nick Hanauer é um milionário norte-americano e vive em Seattle. Em Março p.p. foi convidado para dar uma Conferência para a TED, na qual teve oportunidade de dizer (entre outras coisas) o seguinte:

“Posso garantir que os ricos não criam empregos. O que produz mais emprego é o “feedback” entre consumidores e empresas. Só os consumidores podem dar vida a este círculo de procura e de oferta. Neste sentido, um consumidor de classe média pode criar muito mais emprego do que um capitalista como eu. (…) Toda a gente que tem uma empresa sabe que empregar mais gente é uma medida de último recurso, algo que se faz apenas quando o aumento da procura do consumidor o exige. Neste sentido, dizermos que somos criadores de empregos não só é incorreto, como falso. É por isso que as atuais políticas estão de pernas para o ar. Quando se tem um sistema de impostos que beneficia os mais ricos, tudo em nome da criação de empregos, o que acontece é que os ricos ficam mais ricos.”

Simples e revelador. Nick Hanauer coloca o dedo exatamente na ferida e confirma a razão de todos aqueles que consideram que a “austeridade” erigida como “regra” é mais do que um disparate – é criminosa. O círculo vicioso de somar austeridade à austeridade, de diminuir rendimentos indiscriminadamente, de apertar o consumo, apenas conduz à falência das empresas e ao desemprego em crescendo, gerando mais miséria, menos consumo e mais impactos negativos para todo o sistema económico. Não crescem plantas em terreno que não se rega – nem se geram recursos para uma Nação se a sua população vegeta na miséria.

Nick Hanauer sabe do que fala e tem plena consciência que, se continuarmos reféns da lógica predatória dos “mercados” e da insanidade reverente de Governos incapazes de reagir à situação, nada mais restará do que caos e destruição.

Resta acrescentar que a TED se recusou a divulgar o vídeo desta Conferência no seu site (tal como faz com todos os oradores convidados), achando-a demasiado “politizada”… Felizmente o poder das redes sociais evidenciou-se, uma vez mais, permitindo que chegasse ao nosso conhecimento aquilo que Nick Hanauer defendeu e destacando-se a imensa hipocrisia em que vivemos atualmente e que urge desmascarar e combater sem tréguas.

sábado, 21 de abril de 2012

Uma simples Rosa

No dia 1º de dezembro de 1955, nos Estados Unidos, Rosa Parks recusou ceder a um branco o seu lugar sentado num autocarro. Rosa Parks foi presa - em Montgomery, capital do Alabama, as primeiras filas dos autocarros de transporte público eram, por lei, reservadas para passageiros brancos. Lá para trás ficavam os lugares nos quais os negros podiam sentar-se.

Naquele dia 1° de dezembro de 1955, Rosa Parks recusou a humilhação. Quando o motorista – branco – exigiu que ela e outros três negros se levantassem para dar lugar a brancos que haviam entrado no autocarro, ela recusou-se a cumprir a ordem, continuando sentada. Com a sua prisão, Rosa abriu as portas do futuro e o seu exemplo levou a um protesto generalizado e à abolição da iníqua lei em Novembro de 1956.

Que nos sirva de lição nestes tempos em que nada parece valer a pena, em que tantos se resignam à inevitabilidade do "empobrecimento" e da exploração de quem trabalha - por vezes basta a coragem de um simples cidadão anónimo para deixar um raio de sol entrar na masmorra mais escura...

quinta-feira, 22 de março de 2012

Regresso ao passado

Um destes dias, cerca das 21 horas, regressava a casa, a pé, depois de ter concluído sessão de formação que estive a conduzir em horário pós-laboral.


À minha frente caminhava um grupo de 5 pessoas - um casal na casa dos 30 e poucos anos e, pelo que pude aperceber-me, três filhos, de idades entre os 12 / 13 anos e uma pequenita com cerca de 4 ou 5. Pelo percurso que faziam concluí que vinham da igreja local, que àquela hora mantinha ainda aberta uma área de distribuição de alimentos e outros produtos para apoio a famílias necessitadas, creio que com apoio da Junta de Freguesia.


O homem e a mulher levavam grandes sacos onde era possível vislumbrar arroz, massas, batatas, enfim, os víveres necessários para a alimentação do mês. Todas as crianças ajudavam, transportando também sacos mais pequenos com alimentos, incluindo a pequenita, que saltitava e sorria, na inconsciência e pureza da sua tenra idade.


Fui vendo aquela família dirigir-se para casa, em silêncio, no início da noite, saberá Deus com que preocupações para o dia seguinte, talvez com o desemprego a roer a alma, talvez já com a ameça de perder a habitação, certamente um espaço para o medo e incerteza para criar e educar os três filhos... Serão milhares, infelizmente, as famílias portuguesas nesta situação... Mas aquela, sem o saber, acordou em mim a memória de um outro tempo distante em que também vi os meus pais fazerem mil e um malabarismos para viverem com dignidade, numa outra época difícil, sem que nada faltasse aos filhos, mas onde tantas vezes as dificuldades apertavam o coração na calada da noite. Regressou este meu País às trevas da fome, do desemprego, da miséria envergonhada, da incerteza no futuro...


Numa curva mais adiante, a família carregada de sacos com alimentos para o mês, desapareceu - antes de entrar em casa e regressar para junto da minha própria família tive que fazer um breve momento de espera, apenas o tempo do vermelho dos olhos e da pressão no peito já não serem visíveis para os meus.


Mas não consigo esquecer aquela menina que, de saquito com alguns alimentos na mão, inocente, livre, doce, saltitava no meio da família que, abrigada pelo anonimato da noite, carregava o parco sustento para escassas semanas...

sábado, 1 de outubro de 2011

Sem pão - o circo arde...

Se o capitalismo parece ter atingido um tal estádio que só se mantém à custa da supressão das liberdades, da imposição de sacrifícios sem fim à vista aos trabalhadores em todo o Mundo, do total controlo do Estado para o "reconstruir" de acordo com os interesses privados, etc, então estamos à beira de um período muito perigoso na História actual...


Creio que já o escrevi algures - um homem que já não tem nada a perder e que é levado ao limite da pressão e dos sacrifícios, facilmente estará predisposto para uma revolta incontrolável. E se a pressão nas ruas, com manifestações democráticas, em nada demove um qualquer "plano sagrado" a cumprir em nome de uma eventual "salvação" que ninguém vislumbra, então estaremos a abrir a porta a formas mais radicais de protesto.


O cimento da Democracia (que ninguém se iluda) chama-se "bem-estar" generalizado, emprego, direitos garantidos, livre escolha - se a maior parte destes factores estão, hoje em dia, a ser escandalosamente postos em causa, por conta de uma crise que é FINANCEIRA e que foi gerada pela especulação desenfreada, sendo quem trabalha que sente na pela toda a dureza da "repressão" dos Estados para recomporem fortunas e impérios financeiros, então os cidadãos sentirão que já pouco ou nada também terão a perder. E é nesse momento que nascem as revoluções - e nem todas têm flores na ponta das espingardas, infelizmente...


Uma Esquerda atenta e democrática tem que estar, hoje em dia, altamente preocupada com isto e DEVE exigir um verdadeiro limite para a exploração, castigo ou seja lá o que for que os trabalhadores deste País (e da Grécia, de Espanha, brevemente de Itália ou até de outros países europeus) estão a sofrer! Se ninguém diz BASTA - bastará uma pequena centelha para acender um rastilho que ninguém depois extinguirá com facilidade. E é também por tudo isto que o protesto tem que ter uma escala global, tem que exprimir-se, em simultâneo, nas várias capitais europeias, tem que ecoar de Atenas a Lisboa, de Madrid a Berlim, como um uivo imenso que, de uma vez por todas, acorde estes dirigentes vazios desta Europa sem rumo, meras marionetas de interesses muito elevados e poderosos e que precisam de um grande "abanão"!


A resignação não é opção - muito menos para quem defende valores de Esquerda!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Uma oportunidade para mudar!...

A acção política que se esgota em múltiplas reuniões, lanches, jantares e repetição de lugares comuns debitados sempre pelos mesmos do costume, sempre a "falar para dentro", nada muda de concreto na vida das pessoas.


Política sem acção é como cerveja sem espuma...


Vivemos tempos difíceis, onde a "re-invenção" não é só possível, mas desejada. Quando vejo, por exemplo, juventudes partidárias que se limitam a "repetir" os tiques de alguns dirigentes, a passar o tempo a arregimentar votos para esta ou aquela eleição interna, ensimesmados em tricas, incapazes de um mínimo de "rebeldia", de inovação, de um simples "grito" contra a corrente, sinto que realmente algo vai muito mal nestes sinistros tempos que vivemos.


Os partidos, tal como estão, "esgotaram-se" - e, tal como as empresas cujo "produto" caiu em desuso, caminharão para a "falência", o que será trágico para a Democracia enquanto sistema que, como dizia Churchill, pode ter imensos defeitos mas ainda está por inventar outro melhor...


É preciso ousar. É preciso perder a "reverência". É preciso perder o medo de inovar para não desagradar a este ou aquele ou perder o "lugar" numa qualquer lista onde a mediocridade impera. É preciso que os militantes de um partido se sintam ÚTEIS à sociedade onde se integram.


Querem exemplos?


Abram as secções para que jovens com menos posses possam aceder à internet, estudar em grupo e até talvez ter apoio gratuito nos estudos de tantos professores que temos nas nossas fileiras. Canalize-se o pagamento das senhas de presença que é feito aos eleitos para Assembleias municipais e de Freguesia para doar regularmente esse valor a IPSS´s de cada Freguesia ou Concelho. Transforme-se algum do tempo gasto em reuniões partidárias onde nada de importante se discute ou é decidido, em tempo útil de voluntariado, assumido enquanto "obrigação" para se integrar listas partidárias, numa época em que tanta gente necessita de apoio e de ajuda.


Não há nada melhor que o exemplo para se ganhar a confiança dos eleitores - e depois de tantos maus exemplos está na hora de fazer diferente, de ir contra a corrente e de "refundar" os valores pelos quais os verdadeiros socialistas sempre se bateram.


Não apenas com palavras - mas com actos!...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Até quando?...


Segundo declarações à CNBC de um tal Silvio Peruzzo, economista no Royal Bank of Scotland (RBS), Portugal tem poucas opções que não seja a de pedir ajuda externa, face à actual crise financeira. E acrescenta:

"Como vimos nos casos da Grécia e da Irlanda, este é um momento muito difícil, com contínuos ataques especulativos [sobre Portugal] até que vejamos uma quebra no circuito sobre a forma de resgate. Será muito difícil a Portugal evitar um resgate no médio prazo e qualquer acordo quanto ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira tem de incluir uma solução para Portugal".

Ao ler estas declarações não pude deixar de me lembrar que o Royal Bank of Scotland (RBS) foi um dos bancos mais atingidos pela actual crise, tendo registado perdas de mais de sete milhões de libras e apenas tendo sobrevivido com uma injecção de 20 mil milhões de libras por parte do executivo britânico. Isto é – por parte dos contribuintes britânicos, os tais que viram, por exemplo, as propinas no Ensino Superior público TRIPLICAREM, com a chegada ao Poder de um Governo de centro-Direita. E que, no fundo, estão a pagar a factura para que o sr. Peruzzo mantenha o seu emprego e faça estas “previsões”… Será que ele também alertou, aconselhou ou previu o imenso “buraco” onde o banco onde ele trabalha se meteu?... O jornalista da CNBC não deve ter achado oportuno questioná-lo, suponho.

Estranhos dias estes…

Fala-se de “resgates” de países, expressão acertada para quem está “refém”. E é isso que realmente acontece. Países inteiros reféns da especulação e da ganância desenfreada que rebentaram com o sistema económico vigente. Nações reduzidas a vagabundos “sem-abrigo” na fila para a “sopa do FMI”. Governos democraticamente eleitos que pouco ou nada determinam sem “autorização” da todo poderosa chanceler alemã, Frau Merkel. Uma Comunidade Europeia onde Wagner manda silenciar Verdi, Chopin ou Aarvo Pärt.

E afinal que “resgate” é este que se propõe? Olhando para os exemplos da Irlanda e da Grécia trata-se, mais ou menos, de deixar que os mesmos “gansgters”, com imensas dívidas de jogo, que nos “raptaram”, exijam à nossa família que entregue tudo o que possui, desde a casa, passando pelo carro e acabando nas jóias, livros e até pacotes de bolachas guardadas na despensa, em troca de nos “libertarem” daqui por…10 anos, com a roupa com que nos raptaram! Como sobreviverá a nossa família? Não querem saber, não é problema deles – e têm carradas de razão, afinal os “gangsters”, como se pode constatar em qualquer filme do James Cagney, não se caracterizam pela generosidade ou comoção perante as dificuldades alheias. Uma coisa eles garantem – o problema deles fica resolvido, liquidando as dívidas de jogo que os andavam a atormentar…

Face a isto apetece quase dizer que estamos entre a forca ou a guilhotina, sendo que na forca ainda resta a esperança que a corda quebre com o peso…

Esta é a tragédia daquilo que já se designou Comunidade Europeia e que, agora, não passa de um Directório comandado pela Alemanha, isto é, determinado pela lei do mais forte – como na selva. Fomos “alunos obedientes” quando nos mandaram destruir a nossa Indústria, secar a nossa Agricultura, refrear as nossas Pescas. Acreditámos na complementaridade e entreajuda entre países iguais, livres e democráticos, neste território a que chamamos Europa. Fomos enganados e alguém pretende agora cancelar-nos o presente e liquidar-nos o futuro, transferindo os rendimentos de quem trabalha para a conta corrente de quem andou a brincar ao Monopólio dos produtos financeiros e “rebentou” com tudo… Por isso muitos dos bancos e outras instituições financeiras que registaram perdas significativas já começam a obter, novamente, lucros consideráveis – enquanto as famílias dos países mais fragilizados economicamente, sobretudo de classe média e média-baixa, se interrogam sobre o dia de amanhã e já sentem na pele as amargas dificuldades do presente.

Até quando a resignação será mais forte que o desespero?... Até quando as ruas da Europa, desta velha Europa, desta nossa Europa, não terão também o sobressalto inesperado da corrente de milhões de jovens a quem se pretende negar o futuro? De milhões de pais e mães incapazes de criar com dignidade os seus filhos? De milhões de trabalhadores a quem se estão a cortar salários e rasgar convenções, contratos e acordos, como se nada valessem?

Já o escrevi algures – um homem desesperado está disponível para tudo. Haja alguém que o lembre à Frau Merkel…

domingo, 9 de janeiro de 2011

Nação


"Uma nação forte nada tem a temer da antipatia dos estrangeiros; uma nação fraca nada deve esperar da simpatia deles".


Textos judaicos

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011


Votos que em 2011 consigamos construir o caminho da Esperança - contra os professores doutores da desgraça e os abutres que se alimentam da exploração e do medo!...

Não se deixem enganar.

Não desistam!



domingo, 21 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eça, agora!...


"Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo económico."



Eça de Queiroz

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Reflectir à Esquerda


Com a devida vénia transcrevo um interessante texto do Prof. Dr. Joffre Justino, Director Pedagógico da Escola Profissional Almirante Reis e que, em meu entender, merece alguma reflexão nestes tempos conturbados e onde urge quebrar dogmas e construir caminhos de futuro:


"O Fim do Modelo Cubano…


Fidel Castro terá dito que o modelo socialista de Cuba se encontra ultrapassado e está a ser considerado por uns tantos, por isso, como não estando, já, são, (foi-o dito por Juan Carlos Hidalgo do Center for Global Liberty…),por ter afirmado tal.

No entanto, 4 dias depois, a 14 de Setembro, a Central de Trabalhadores de Cuba e o Governo Cubano, ( na lógica comunista trabalham em parceria, ao contrário do que sucede nos países “capitalistas”, às centrais sindicais comunistas…que ignoram a concertação social), anunciavam que nos próximos 6 meses iriam ser despedidos do Estado 500 000 cidadãos e cidadãs, 10% da população activa, que auferem salários da ordem dos 20 dólares em média.

Cuba tem uma população activa de 4,9 milhões de Pessoas e destas trabalham no Estado todos menos 148 mil, isto é 4,752 Pessoas.

Entretanto, a economia de mercado cubana foi crescendo, desde o suicídio da URSS (e, depois, de quase todos os restantes países comunistas), à custa de um único sector – o do Turismo – e com fortes apoios económicos de países, hoje infelizmente também em forte crise, como a Venezuela e, em muito menor monta desde o findar da Guerra Civil, Angola.

Não é que Cuba não tenha andado no mercado mundial.

Andou.

Por exemplo exportando mercenários, militares, para guerras civis como a de Angola e da Etiópia, mas também médicos, em maior monta e mais recentemente para a Venezuela, mas para outros países também.

E fê-lo, na minha opinião, em pura lógica de economia de mercado, capitalista portanto, só que com o negócio controlado pelo Estado, em capitalismo de estado.

Mas, entretanto os tempos mudaram.

E, ainda por cima, o Turismo não se tem mostrado suficiente, por razões óbvias – Cuba para alimentar o Turismo tinha uma enorme despesa pública com a Importação de produtos vários que sustentavam e são essenciais para sustentar o Turismo, já que a economia cubana, dominantemente estatizada, é de uma baixíssima rentabilidade e produtividade .

A central sindical cubana, comunista, aliada da portuguesa CGTP, segundo a comunicação social, refere que, “O texto prevê a redução "de vultuosos gastos sociais", a eliminação de "subsídios excessivos", o "estudo como fonte de emprego e aposentadoria antecipada".”, o que como se vê equipara a comunista Cuba, em maior monta diga-se, às dificuldades, que Portugal vive perante esta crise mundial e que o PCP, o BE, a CGTP, em Portugal, denunciam, como sendo da culpa do actual governo.

Referindo o exagero de funcionários públicos, em nº, os maus hábitos que tal gera na economia, a mesma central sindical afirma que estes despedidos do Estado serão integrado no sector “não estatal da economia”.

Sem mais.

Sem afirmar se tal acontecerá a todos, não o pode fazer, quando tal acontecerá, não o pode fazer, e em que circunstâncias tal acontecerá, não o pode fazer.

Porque está numa dominância de economia de mercado.

Assim, a economia de mercado em Cuba, tenderá, provisoriamente é certo, mas tenderá, a reduzir-se, pequena que ainda é, economia de mercado bem frágil, (salários de 20 US dólares geram, claro, uma minúscula economia, interna, de mercado), o que gerará grave desemprego, para 10% de cubanas e cubanos, (basicamente, o mesmo nº de Pessoas Desempregadas que existem no capitalista Portugal).

Vivemos numa economia Global, e gostamos – dos telemóveis globais, e globalmente fabricados, dos automóveis globalmente fabricados, dos electrodomésticos globalmente fabricados, da mau de obra barata que recebemos com a Imigração e enviamos com a Emigração, assim como do ananás brasileiro, da manga venezuelana, etc,… Gostamos.

Mas, ao mesmo tempo, queixamo-nos – do Desemprego que as deslocalizações geram, do predomínio da economia financeira, imaterial, sobre a material, com a tendencial redução da Produção Nacional, dos Imigrantes que temos, etc.

A divisão internacional, comunista, do trabalho, base da economia cubana, base do modelo cubano que Fidel Castro assumiu, morreu, com o suicídio da URSS.

Ela tinha atingido o limite de crescimento possível, com a tecnologia existente, e morreu.

Marx explicou tal há cem anitos….

O Socialismo não se constrói em economias fechadas, (dai a Internacional, lembram-se?), nem fora do contexto da dinâmica das Pessoas, e o comunismo que conhecemos estatizou, limitou a criatividade e a dinâmica individual, e teve, por isso, de falir.

E o modelo de Cuba, dramaticamente, falirá e gerará ainda mais Desemprego e crise, ou, em alternativa, terá de mudar rapidamente.

Que, como se vê, é o que o governo comunista de Cuba deseja, mesmo que tal origine 10% de Desempregados…como em Portugal acontece.

O tempo do Socialismo global ainda não chegou, a tecnologia existente é ainda insuficiente.

Mas, mais que a tecnologia, é a estrutura cultural e mental das Pessoas, egoísta que é, que não o permite.

Marx também já explicou tal há já cem anos, ao criticar os proudhonianos de então, hoje os comunistas tipo PCP e populistas tipo BE.

Marx sempre referiu que o Estado não é o comunismo, é, tão somente, um mero instrumento de gestão, tendo criticado duramente os que imaginavam, ao seu tempo, o Estado a ser comunista…

Estamos com 210 milhões de desempregados no Mundo, mais 30 milhões que em ano anterior e toda a gente a começar pelo director geral do FMI já entendeu que o Mundo está em nova mudança.

Pelo que as receitas antigas deveriam ser enterradas e deveríamos pensar em novas receitas.

Em Portugal o governo, como os restantes, procura os novos caminhos que os economistas, bruxos que são, e por o serem, claro, desconhecem.

Reduzir a divida publica?

Tal aumenta o Desemprego, diminui a capacidade de consumo, reduz o Mercado, gera falências, e um ciclo maior de crise.

Aumentar a divida publica?

Tal gera desconfiança nos ditos mercados financeiros, aumento dos juros dos empréstimos e mesmo dificuldade em os obter.

Resta a ideia de gerir sustentadamente a divida pública.

Milimetricamente, que é o que se tem feito, para ir dinamizando a economia.

No Brasil foi mais fácil porque a Esquerda dominante, PT, PCdoB, sabiam que só podiam gerir assim a solução da crise em que o Brasil estava.

E, sustentadamente, só pode ser, gerar uma situação em que 30 milhões de brasileiros saíssem do limiar de Pobreza.

Aumentando o mercado pelo aumento da capacidade de consumo.

Ora quando se aumenta o mercado, aumenta a Riqueza também para os empresários que produzem e distribuem.

É pois pura manipulação, um texto de um tal Clóvis Rossi, que disse, à PCP/BE, no Publico, que, “Os ricos estão mais ricos, os pobres menos pobres e a desigualdade persiste”.

Porque na verdade o Brasil era “historicamente um país de obscena desigualdade social” e hoje, é um país onde a distribuição dos rendimentos se iniciou.

Pegando no índice de Gini este intelectual brasileiro lá tem de reconhecer que os dados que usa, de 2003, são anteriores a Lula.

No entanto, a verdade é absoluta, o aumento do mercado, gera mais lucros para as empresas que, não serão no seu todo, redistribuídos de imediato.

Mas foram-no em parte, melhorando as condições de mais de 30 milhões de brasileiros.

E tal aconteceu porque a Esquerda não anda nos caminhos que interessam sim à Direita e, sabendo que os ricos ganham com o aumento do mercado mais que os pobres, interessam-se sim com o aumento da riqueza entre os pobres.

É a posição do PCdoB aliado de Lula,por exemplo.

Um partido diga-se de tradição bem revolucionária.

Valia a pena que o PCP, o BE, a CGTP aprendessem com o que se passa em Cuba e com o que se passa no Brasil.

Porque a economia não são nºs, são Pessoas e Motivações de Pessoas.

Pelo que urge mudar esta mentalidade de um criticismo reducionista, derrotista, por forma a em conjunto, solidariamente, superarmos esta primeira Grande Crise da Globalização.

Porque Fidel tem mesmo razão, (e eu guevarista que fui, nunca fui castrista), não está de forma alguma maluco, e o modelo cubano “já não funciona”, de verdade.

E um bom leader assume.

Esperamos, nós os de expressão portuguesa, que o PCP e o BE o assumam também.



Joffre Justino"

sábado, 28 de agosto de 2010

Os outros...



"Quem não se sentir ofendido com a ofensa feita a outros homens, quem não sentir na face a queimadura da bofetada dada noutra face, seja qual for a sua cor, não é digno de ser homem."



José Marti