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sábado, 13 de outubro de 2012

Uma fábula...


Era uma vez um velho, muito vaidoso e muito rezinguento, que morava no alto de uma serra, perto de uma cidadezinha muito bonita e pitoresca.

Todos os dias o velho saía de casa à procura de algo de que pudesse dizer mal – se estava sol, queixava-se do calor; se chovia, queixava-se de ter os pés ensopados; se o Governador mandava podar as árvores, queixava-se da falta de sombra; se as crianças riam alto, queixava-se do ruído…

Para além de se queixar de tudo e de nada, o velho considerava-se a pessoa mais culta ao cimo da terra e desdenhava de todos os outros, considerando-os uns analfabetos ignorantes. Apenas permitia junto de si, em certas tardes em que servia chá na sua sala cheia de calhamaços e velhos discos de vinil, outros velhos e velhas amigas que o adulavam e elogiavam continuamente, enquanto trincavam bolachinhas e bebericavam chá.

“Meu caro, não há ninguém tão erudito como você nesta cidade e arredores!” – dizia um.

“Na cidade e arredores? Eu diria no continente todo!” – lançava outro.

“Meus amigos, atenção que em todo o Mundo duvido que haja mesmo alguém com tanta cultura, com tanta argúcia e com tanta capacidade de crítica!” – terminava um terceiro, servindo-se de chá.

E o velho ouvia e sorria, deleitado com tanta adulação e confortável naquele seu pequeno Mundo onde era rei e senhor…

Um dos alvos preferidos do velho era o Governador, porque em tempos lhe tinha negado a nomeação para Director Geral dos Arquivos Imperiais, algo que ele sempre considerara como seu – afinal, não era ele o homem mais culto, mais requintado, mais conhecedor de tudo e de nada, que existia naquela cidade?... Mas o Governador, temendo ter que aturar tanta rezinguice diariamente, preferiu dar o lugar a outra pessoa, facto que o velho jamais perdoou.

Desde essa altura passou a procurar as mínimas minudências para denegrir e atacar o trabalho do Governador. Assim, nas suas passeatas diárias, para além de embirrar com tudo e com todos com quem se cruzava, lá ía tomando notas, num bloquinho, das mil e uma ninharias com que poderia chatear o Governador, quer fazendo reclamações constantes nos serviços respetivos, quer escrevendo crónicas quase diárias que imprimia e colocava nas caixas de correio da cidade.

Certo dia, cansado de tanta queixa do velho e temendo que a população da cidade começasse a dar-lhe crédito e ainda o fizesse perder as eleições próximas, o Governador decidiu mandar chamá-lo para uma conversa pessoal.

O convite lá seguiu para casa do velho e este, entre o surpreendido e o curioso, compareceu ao encontro.

Sabendo o quão vaidoso era o velho, o Governador começou logo por saudá-lo com elogios sem fim:

“Muito obrigado por ter vindo, meu caro amigo, a luz da sua inteligência ilumina todo o meu palácio!”

“Obrigado… - replicou o velho – mas certamente o sr.Governador não me chamou aqui para me tecer elogios…

“Caro amigo, não existem elogios suficientes para a sua elevada craveira! O senhor é o farol moral da nossa cidade, a enciclopédia viva da nossa História, o anjo protetor face a todos os abusos!” – lançou o Governador enquanto mirava a reação do velho, que já começava a sorrir, vaidoso e inchado que nem um perú.

“Mas vamos ao que interessa, caro amigo – prosseguiu o Governador – Chamei-o aqui porque decidi propor ao Conselho Imperial de Comendas e Foguetório que o meu caro amigo receba a Ordem da Mais Elevada e Impressionante Inteligência, como corolário de tanta preocupação e sugestões que o senhor sempre procurou dar para melhoria da nossa cidade!...”

O rosto do velho iluminou-se! Ele teria ouvido bem?... A Ordem da Mais Elevada e Impressionante Inteligência?!... Algo que ele ambicionava há anos e que ninguém jamais recebera?... Mais - algo que ele considerava ter sido criado especialmente para si, porque não existia ninguém mais inteligente e culto naquelas redondezas?...

Tentando conter-se lá respondeu:

“Fico-lhe agradecido, sr. Governador. Obviamente que sei que mereço essa distinção e muitas outras, mas não posso deixar de lhe agradecer, claro..”

“Ótimo!” – exclamou o Governador – Mas gostaria apenas de lhe pedir uma coisa, muito simples, mas que faz parte da atribuição desta Ordem…”

“Sim?... Diga, então…” – respondeu o velho algo desconfiado.

“Quero que passe a usar a faixa da ordem, todos os dias, sempre que sair de casa e para que todos a vejam e o saúdem …” – disse o Governador.

O velho já mal conseguia disfarçar a vaidade que lhe saltava por todos os poros, já esquecera a anterior desfeita do Governador, todo um novo Mundo de bajulação se abria a seus pés!...

“…e – prosseguiu o Governador – em conjunto com o uso da faixa, terá também que passar a usar estes óculos, todos os dias, e sempre que sair de casa.”

E estendeu ao velho um par de óculos escuros.

O velho agarrou nos óculos e experimentou-os. Não conseguia ver rigorosamente nada!... Não eram uns vulgares óculos de sol, porque alguém pintara de tinta negra as lentes e nada se conseguia ver quando eram colocados…

“Que tal, meu caro amigo?...” – perguntou o Governador.

O velho ía a dizer que não conseguia ver nada mas entretanto o Governador prosseguiu:

“Espero que se sinta bem, porque as regras dizem que ninguém pode usar a faixa da Ordem se recusar usar os óculos ou, pior ainda, se disser que nada consegue enxergar com eles, porque são construídos de um material especial e apenas os iluminados, as grandes inteligências, conseguem ver o Mundo através destas lentes…”

O velho calou-se. Obviamente que não ía dizer que não conseguia ver nada – era o que faltava, perder aquela oportunidade única de obter a comenda mais desejada!...

“Vejo magnificamente, sr. Governador! Não se preocupe. Marque a data para a cerimónia de entrega da Ordem, que cá me apresentarei!” – atalhou o velho.

E assim foi.

O Governador organizou uma grande festa para entregar a faixa da Ordem da Mais Elevada e Impressionante Inteligência ao velho, que fez um longo discurso de 3 horas, onde se auto-elogiou largamente, perante a estupefação de uns e a bajulação de outros. A cidade engalanou-se e o velho inchou como um balão prestes a rebentar…

A partir desse dia o velho passou a sair de casa sempre com a faixa da Ordem atribuída ao peito e os respetivos óculos escuros. Obviamente que nada via e por isso tinha que caminhar muito devagar e tentando agarrar-se às árvores e casas por onde passava, tentando orientar-se. Nunca mais levou o bloquinho para recolher notas de maledicência e, quer as coisas estivessem bem ou mal na cidade, terminaram as suas queixas e as caixas de correio nunca mais foram inundadas com os seus panfletos de protesto contínuo.

Impante e completamente cheio de si, o velho resignou-se a ser “cego” quando saía de casa todos os dias e o Governador passou a ter menos aquela voz incómoda a massacrá-lo, pelo que, afinal, até podemos considerar que todos ficaram felizes com o negócio…

Moral da história: vocês sabem qual é, basta que tirem esses óculos escuros com que estão a lê-la…

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Fábula


Era uma vez uma casa no alto de um monte que era considerada uma das casas mais belas do lugar. Dentro da casa vivia uma velha senhora e um rapazito que ela adoptara. Toda a casa, por dentro, estava forrada a espelhos, porque a velha senhora adorava ver-se e rever-se nos espelhos, sentindo-se a mais bela das belas e a mais inteligente entre todos os sábios da Terra.

A tarefa principal do rapazito que vivia com ela consistia em limpar, meticulosamente, os espelhos de toda a casa, de forma a que nunca existisse nenhuma dedada, nenhuma mancha, nenhum excremento mínimo de mosca que ofuscasse a imagem que a velha senhora adorava ver reflectida de si. Nos dias em que se levantava com algumas olheiras devidas a mau dormir, berrava para o rapazito cobrir os espelhos da casa com alvos lençóis de algodão, de forma a que os espelhos não pudessem reflectir uma imagem que considerava menos boa de si.

E assim se passavam os dias...

Quando a velha senhora se deitava, o rapazito aproveitava para abrir um pouco uma janela das traseiras da casa e cantarolar baixinho velhas canções de quando andava na escola, como uma que rezava assim:

"- Eu prometo, tu prometes, eles prometem, nós prometemos... ai, ai, ai...e eles votam! Trailarai!..."

Era uma velha canção dos tempos em que se candidatara a delegado de turma no 9º ano e conseguira ganhar a eleição prometendo, a todos os colegas que votassem nele, meia dúzia de rebuçados e três cromos de craques da bola. Claro que depois de ganhar rapidamente esqueceu as promessas, mas que importava isso?... Gostava de a cantarolar, assim baixinho, recordando esses bons tempos idos...

Um certo dia de manhã bateram à porta. Era outra velha senhora, muito amiga da que vivia na casa com o rapazinho e que vivia longe, numa terra bem afastada dali. Para dizer a verdade, realmente nem sempre tinham sido assim tão amigas - o rapazinho ainda se lembrava de ouvir a sua ama dizer que detestava a pose da outra, que ela tinha a mania que era boa, que não a podia ver nem pintada, mas o que era certo é que, certo dia, a velha senhora que vivia longe visitou a sua ama, levou-lhe um espelho que dava exactamente para cobrir todo o tecto do sótão (única parte onde faltavam espelhos) e as duas fizeram as pazes e juraram amizade eterna. No final o rapaz serviu chá de jasmim e bolachinhas de canela e ambas acabaram a tarde a desfolhar albuns de recortes, com fotos das duas, retirados de revistas cor de rosa.

Entretanto o tempo tinha passado e as duas estavam já há muitos meses sem se verem. Mal o rapazito abriu a porta caíram ambas nos braços uma da outra, o ar encheu-se de risinhos e de gritinhos e logo acabaram sentadas na sala, enquanto o rapaz preparava um pequeno lanche.

- Então, cara amiga? A que devo a honra desta visita? - perguntava a dona da casa com um sorriso rasgado.

- Deu-me saudades suas, sabe?... Já não suportava estar tanto tempo sem vê-la, meu anjo...

- Mas assim, de repente? E logo para se dar ao trabalho de suportar uma viagem tão incómoda e tão longa?... - questionou a velha senhora que vivia na casa do monte, ainda com resquícios de uma certa desconfiança e de um tempo em que dizia da outra aquilo que Maomé jamais dissera do toucinho.

- Bem... - pigarreou a outra - Já que insiste, e para além da cruel saudade que me tolhia o coração e me impeliu a visitá-la, também há um favorzinho que lhe queria pedir..

- Diga lá, amiga... - sussurrou a ama do rapazito, já de pé atrás e mexendo o chá devagarinho, com uma colherzinha de prata.

- Sabe...eu queria perguntar-lhe se era possível usar a sua casa durante uns dias e os seus espelhos porque há um canal de televisão que quer fazer uma reportagem sobre a mulher mais bela e mais influente do Mundo e eu acho que este cenário é o ideal...

A dona da casa rasgou ainda mais o sorriso, quase deixou cair a chávena e levantou-se de súbito para abraçar a amiga:

- Ai, querida, que bom, que feliz me sinto por se ter lembrado de mim! Mil vezes obrigado! E quando vêm cá a casa filmar-me?

O rapazinho, eufórico e saltitante, já correra para o seu pequeno computador portátil e preparava-se para actualizar o perfil da ama no "Monte Book", um site onde todos os habitantes daquela terra exibiam as suas fotos, opiniões, ditos espirituosos e até brincavam, tal qual criancinhas, com um jogo que consistia em criar gado bovino e alimentá-lo a pão de ló.

Foi nesse momento que a visitante interrompeu:

- Creio haver aqui um equívoco... - balbuciou.

- Equívoco?... Como?... - respondeu a velha senhora refreando o abraço com que envolvia a outra.

- É que... a minha ideia era pedir a sua linda casa emprestada mas para fazerem uma reportagem comigo... Comigo... entendeu, cara amiga?...

O rapazinho susteve até às lágrimas o grito que ía a dar por ter entalado os dedos no seu pequeno computador. A sua ama, lívida, recuou três passos e sentiu uma tontura leve...

- Emprestar-lhe a minha casa?... Para você brilhar em frente aos meus espelhos?... Logo você que só pode ser a 2ª mulher mais bela e mais inteligente do Mundo porque, obviamente, a primeira SOU EU?! - vociferou, já de cabeça completamente perdida.

- Ai, deixa-me rir! - provocou a outra - Você a mais bela?! A mais inteligente?! Só se for aqui no monte onde todos são ignorantes! Ah, ah...

Ainda hoje ninguém consegue explicar completamente o que se passou. O certo é que, num ápice, as duas se envolveram numa bulha furiosa e todos os espelhos da casa acabaram reduzidos num montão de cacos! Não sobrou nem um centímetro onde nenhuma das duas se pudesse mirar e realmente, no final daquela luta feroz, triste figura veriam de ambas...

Os vizinhos, incomodados com tal estardalhaço, chamaram a policia que acabou por internar as duas num hospício, já que não diziam coisa com coisa e insistiam em agredir-se mutuamente. E aquela que fora a mais bela casa daquele monte e arredores estava agora reduzida a um monte de escombros.. Já não servia para ninguém...

Quanto ao rapazinho fugiu para bem longe, assustado com o rumo que as coisas levavam e nunca mais ninguém o viu, embora haja quem jure que, nas noites de lua cheia, ainda se ouve a sua vozinha ao longe cantarolando:

"- Eu prometo, tu prometes, eles prometem, nós prometemos... ai, ai, ai...e eles votam! Trailarai!..."