quinta-feira, 10 de março de 2011

A luta rasca...


"De resto, esta histeria contra os “políticos” também não augura nada de bom. Esperemos que um dia a geração à rasca não descubra realmente o que é um “político” com mão dura que os ponha efectivamente à rasca. Depois é que seria interessante vê-los na rua a gritar que a “Luta é Alegria”.


Lauro António

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Haja memória!


Na página da internet do Bloco de Esquerda de Sintra pode ler-se o seguinte:


"Por proposta do Bloco de Esquerda, a Assembleia Municipal irá descentralizar algumas sessões pelas freguesias do Concelho. A primeira sessão descentralizada será em Junho, prevendo-se para breve o anúncio do local. Embora a descentralização esteja prevista no Regimento, da Assembleia, desde 2005 que todas as sessões se realizaram na sede do Concelho. A decisão foi tomada na última reunião da Conferência de Representantes, a 17 de Fevereiro, onde também ficou agendada, para final de Março ou principio de Abril, a realização de uma sessão temática, dedicada à temática da Saúde no Concelho de Sintra.

O Bloco de Esquerda congratula-se com estas deliberações, bem como com o retomar de uma prática que aproxima os órgãos autárquicos dos e das munícipes e que e fomenta a participação popular. "

Sobre este assunto gostaria apenas de recordar o texto que eu próprio aqui publiquei em 2009 e que se traduziu igualmente, na altura, numa proposta apresentada, por mim próprio, em nome do PS, na Assembleia Municipal e que, a pedido da maioria Mais Sintra, acabou por não ser sujeita a votação nessa AM, remetendo-se para conferência de líderes que acabou por jamais se concretizar em tempo útil. Reza o seguinte:


"A Assembleia Municipal de Sintra é o parlamento dos cidadãos deste Concelho. Assim, a par do seu papel de órgão fiscalizador da gestão camarária, deve ser espaço de debate, de reflexão, de cidadania.

A mudança de instalações da Assembleia Municipal de Sintra não é apenas uma necessidade há muito sentida - é uma exigência de participação. São muitos os sintrenses que acorrem às sessões da AM e não encontram condições minimamente dignas para assistirem às mesmas, quer pela exiguidade do espaço, quer pelas condições oferecidas (falta de lugares sentados, calor insuportável quando a sala está cheia, acumular de pessoas na única entrada para a sala onde decorrem as sessões, dificuldades de estacionamento na zona, etc). Os auditórios do C.C. Olga Cadaval têm todas as condições para efectuar essa mudança, com óbvios benefícios para os munícipes e eleitos.

Mas não basta - há também que realizar determinadas sessões da AM em algumas freguesias do Concelho, na eventual impossibilidade de realização em todas. Há que aproximar (na prática e não na mera retórica dos discursos da praxe) eleitos de eleitores, num Concelho de grande dimensão territorial e diversidade de populações. Nada é impossível, basta querer - e esta é também uma exigência de cidadania.

A AM não deve limitar-se, igualmente, ao seu papel fiscalizador ou ficar condicionada pela "agenda" da "rotina" camarária. Cabe-lhe um papel relevante na realização de debates temáticos, convidando especialistas e munícipes a intervir e, dessa forma, esclarecendo, discutindo, ajudando a construir soluções partilhadas. Mas também na fiscalização da actividade camarária o grau de exigência deve, necessariamente, aumentar, face a uma maioria de Direita que já dá claros sinais de querer "fechar-se" sobre si: as perguntas feitas pelos membros da AM ao Presidente da CMS e respectiva vereação, sobre assuntos diversos da gestão camarária, terão que ter resposta dentro dos prazos definidos e as manobras dilatórias para que tal não suceda (como aconteceu, diversas vezes, no anterior mandato) deverão ser clara e publicamente denunciadas. Cabe também aqui um papel fulcral aos órgãos de Comunicação Social, que não raras vezes, nestes últimos oito anos, preferiram noticiar o "acessório" em vez do "essencial" - Sintra precisa como de pão para a boca de uma Imprensa que discuta, confronte os poderes estabelecidos, debata, dê voz a todas as correntes de opinião de forma equitativa e que rompa com o "círculo vicioso" das notícias sobre "comemorações" e "chás dançantes".

Constituindo-se como oposição em Sintra (e sendo o maior partido do Concelho) cabe ao PS um papel determinante na prossecução destes objectivos que, no essencial, mais não visam do que dar voz aos sintrenses, aprofundar a participação democrática dos munícipes e exigir rigor e seriedade nas políticas traçadas."


Como se pode constatar, a proposta que o Bloco de Esquerda agora reivindica como sua (realização descentralizada de sessões da AM por diversas freguesias do Concelho) já foi feita, há mais de 1 ano, por mim próprio, em representação do meu partido, em sessão da Assembleia Municipal de Sintra - bastará, para tal, consultar a Acta da sessão respectiva.

Aparentemente, nem sequer o representante de ocasião do PS nesta "conferência de representantes" agora levada a efeito, teve memória de que este tema já tinha sido oportunamente proposto pelo seu próprio partido - mas esse é apenas mais um indício de uma ausência de liderança efectiva da bancada do PS na actual Assembleia Municipal, que não posso deixar de registar e lamentar e que vai permitindo que uns deitem os foguetes e outros façam a festa...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Até quando?...


Segundo declarações à CNBC de um tal Silvio Peruzzo, economista no Royal Bank of Scotland (RBS), Portugal tem poucas opções que não seja a de pedir ajuda externa, face à actual crise financeira. E acrescenta:

"Como vimos nos casos da Grécia e da Irlanda, este é um momento muito difícil, com contínuos ataques especulativos [sobre Portugal] até que vejamos uma quebra no circuito sobre a forma de resgate. Será muito difícil a Portugal evitar um resgate no médio prazo e qualquer acordo quanto ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira tem de incluir uma solução para Portugal".

Ao ler estas declarações não pude deixar de me lembrar que o Royal Bank of Scotland (RBS) foi um dos bancos mais atingidos pela actual crise, tendo registado perdas de mais de sete milhões de libras e apenas tendo sobrevivido com uma injecção de 20 mil milhões de libras por parte do executivo britânico. Isto é – por parte dos contribuintes britânicos, os tais que viram, por exemplo, as propinas no Ensino Superior público TRIPLICAREM, com a chegada ao Poder de um Governo de centro-Direita. E que, no fundo, estão a pagar a factura para que o sr. Peruzzo mantenha o seu emprego e faça estas “previsões”… Será que ele também alertou, aconselhou ou previu o imenso “buraco” onde o banco onde ele trabalha se meteu?... O jornalista da CNBC não deve ter achado oportuno questioná-lo, suponho.

Estranhos dias estes…

Fala-se de “resgates” de países, expressão acertada para quem está “refém”. E é isso que realmente acontece. Países inteiros reféns da especulação e da ganância desenfreada que rebentaram com o sistema económico vigente. Nações reduzidas a vagabundos “sem-abrigo” na fila para a “sopa do FMI”. Governos democraticamente eleitos que pouco ou nada determinam sem “autorização” da todo poderosa chanceler alemã, Frau Merkel. Uma Comunidade Europeia onde Wagner manda silenciar Verdi, Chopin ou Aarvo Pärt.

E afinal que “resgate” é este que se propõe? Olhando para os exemplos da Irlanda e da Grécia trata-se, mais ou menos, de deixar que os mesmos “gansgters”, com imensas dívidas de jogo, que nos “raptaram”, exijam à nossa família que entregue tudo o que possui, desde a casa, passando pelo carro e acabando nas jóias, livros e até pacotes de bolachas guardadas na despensa, em troca de nos “libertarem” daqui por…10 anos, com a roupa com que nos raptaram! Como sobreviverá a nossa família? Não querem saber, não é problema deles – e têm carradas de razão, afinal os “gangsters”, como se pode constatar em qualquer filme do James Cagney, não se caracterizam pela generosidade ou comoção perante as dificuldades alheias. Uma coisa eles garantem – o problema deles fica resolvido, liquidando as dívidas de jogo que os andavam a atormentar…

Face a isto apetece quase dizer que estamos entre a forca ou a guilhotina, sendo que na forca ainda resta a esperança que a corda quebre com o peso…

Esta é a tragédia daquilo que já se designou Comunidade Europeia e que, agora, não passa de um Directório comandado pela Alemanha, isto é, determinado pela lei do mais forte – como na selva. Fomos “alunos obedientes” quando nos mandaram destruir a nossa Indústria, secar a nossa Agricultura, refrear as nossas Pescas. Acreditámos na complementaridade e entreajuda entre países iguais, livres e democráticos, neste território a que chamamos Europa. Fomos enganados e alguém pretende agora cancelar-nos o presente e liquidar-nos o futuro, transferindo os rendimentos de quem trabalha para a conta corrente de quem andou a brincar ao Monopólio dos produtos financeiros e “rebentou” com tudo… Por isso muitos dos bancos e outras instituições financeiras que registaram perdas significativas já começam a obter, novamente, lucros consideráveis – enquanto as famílias dos países mais fragilizados economicamente, sobretudo de classe média e média-baixa, se interrogam sobre o dia de amanhã e já sentem na pele as amargas dificuldades do presente.

Até quando a resignação será mais forte que o desespero?... Até quando as ruas da Europa, desta velha Europa, desta nossa Europa, não terão também o sobressalto inesperado da corrente de milhões de jovens a quem se pretende negar o futuro? De milhões de pais e mães incapazes de criar com dignidade os seus filhos? De milhões de trabalhadores a quem se estão a cortar salários e rasgar convenções, contratos e acordos, como se nada valessem?

Já o escrevi algures – um homem desesperado está disponível para tudo. Haja alguém que o lembre à Frau Merkel…

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Petição pela Regulamentação das Agencias de Notação!


Está a decorrer uma Petição para exigir a discussão e urgente regulamentação das Agências de "Rating". Tenho muita honra em ter sido convidado para integrar o grupo que desencadeou a mesma (liderado pelo meu amigo e camarada Joffre Justino) e estar entre os seus primeiros signatários.

Nomes como Ana Gomes, Miguel Portas, António Serzedelo e Camilo Mortágua, entre outros, encontram-se entre os que já assinaram esta Petição - pode conhecê-la e expressar igualmente o seu apoio, aqui.

Cuidado!...




Em dias de chuva muito intensa (como é o caso de hoje) há um troço do IC19 que se torna especialmente perigoso para a condução, devido a grande acumulação de água no piso, propício a situações de "aquaplanning".


(foto CM Sintra)

Trata-se da zona de curva ascendente, logo após uma das saídas para o Cacém, no sentido Lisboa - Sintra, sobretudo na faixa da esquerda, normalmente aquela onde se conduz com maior velocidade.

Ainda hoje lá estava mais um carro que se despistou e foi embater no separador central - todo o cuidado é pouco!...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Gato escondido..


A pouco e pouco o véu vai-se levantando.

A Direita neo-liberal, pura e dura, que faz fila atrás de Passos Coelho e aguarda com mal disfarçada ansiedade o regresso ao Poder, começa a não conseguir disfarçar ao que vem, com um enfoque especial num ataque cerrado ao Estado e ao seu papel social. Ontem, Passos Coelho defendia que as empresas públicas “com prejuízos” fechassem, pura e simplesmente – dizia ele que só assim deixariam de “prejudicar a iniciativa privada”… Na sequência dessas afirmações até alguns comentadores de Direita vieram colocar água na fervura, lembrando que existem empresas de transportes públicos, por exemplo, que não podem dar lucro sem subirem os preços para níveis incomportáveis, devendo o “prejuízo” que têm, ser coberto pelo Estado, ao desempenhar as funções sociais que lhe devem estar atribuídas.

Hoje, surgem declarações sobre a “eventual necessidade” de despedimentos na Função Pública, sempre com a ameaça velada que podem ter que “ser impostos” por alguém de “fora”.

Sejamos claros – para o PSD uma intervenção do FMI em Portugal faz parte da sua estratégia política e é isso que é trágico! Sem terem sequer a CORAGEM de chamar os bois pelos nomes, muitos dirigentes, militantes e simpatizantes do PSD (quero acreditar que os verdadeiros SOCIAL-DEMOCRATAS daquele partido terão outro pensamento!) anseiam secretamente pela “débacle” financeira que leve o País a ter que pedir “ajuda” e, dessa forma, a ficar refém dos interesses e imposições do exterior. Nesse cenário o PSD poderia facilmente pedir eleições antecipadas e o “seu” Presidente, Cavaco Silva, talvez até desse uma ajuda dissolvendo a AR e marcando data para novo sufrágio, considerando que ele próprio já declarou que tal situação representaria “um falhanço” para o Governo. Com a eventual vitória do PSD e formação de Governo com o PP, a porta estaria escancarada para que o FMI entrasse no País, talvez até com um ufano António Borges, militante “laranja” e Director do Fundo, à cabeça do cortejo…

Depois, está bom de ver: “demonização” do PS e do anterior Governo, “únicos” responsáveis pela situação difícil do País; “lágrimas de crocodilo” face à inevitabilidade de ter que cortar ainda mais nos rendimentos das famílias; aumentar impostos sobre a propriedade (IMI a duplicar, por exemplo, para “destruir” a classe média e forçá-la a vender as casas ao desbarato, proporcionando óptimos negócios daqui por alguns anos aos abonados que agora as adquirissem…); total entrega da Educação e da Saúde a privados, através de truques como os “cheques-ensino” e imposição de “seguros de Saúde”, acabando o Serviço Nacional de Saúde por definhar e transformar-se num mero sistema “assistencial” das classes mais baixas; “desculpabilização” dos partidos no Poder (PSD e PP) através do FMI que surgiria como força de “imposição”, suportado no discurso repetido “ad nauseum” pelos comentadores e economistas do “regime” de que “não há alternativa” e de que “todo o sofrimento é necessário”.

Não sei o que poderá suceder num cenário destes – mas tenho a certeza absoluta que é aquilo que PSD e PP preparam!

O derrube do Primeiro-Ministro, procurado encarniçadamente ao longo dos últimos anos, com todas as campanhas por demais conhecidas, nunca se transformou numa realidade – e José Sócrates é, hoje em dia, o “alvo” a abater porque só ele continua a dar consistência ao Governo, a persistir numa liderança firme e que procura traçar caminhos de futuro no meio da incerteza actual. Caindo José Sócrates cai o Governo e o PS entrará numa longa “noite de facas longas”. Esta é a questão fulcral e por isso continuo a achar que, apesar de algumas situações que o PM deve ter em atenção e correcções que ainda poderá (e deverá) fazer no modelo de governação, não tenhamos dúvidas que só com Sócrates o “caminho estreito” a fazer poderá ter um desfecho positivo.

Não é o PS que terá a ganhar com isso – é Portugal!

Uma eventual vitória eleitoral do PSD num próximo escrutínio não representará a mesma coisa se acontecer no meio desta “crise” financeira ou se, entretanto, o País tiver conseguido dobrar o “Cabo da Boa Esperança” e existirem outras perspectivas macroeconómicas, já não sendo possível ao novo executivo refugiar-se atrás do “cutelo” utilitarista da “ameaça estrangeira”.

Há momentos decisivos na História das Nações em que se impõe uma visão clara das forças e interesses em disputa, ainda que sacrificando temporariamente alguns projectos particulares, críticas personalizadas ou “tácticas” de intervenção. Neste “combate” não podem existir “fissuras” que apenas beneficiam aqueles que não se importam de sacrificar todo um País para obterem o Poder e, trinta e seis anos após a Revolução de Abril, desencadear o mais violento processo de ataque ao Estado-Social e às classes mais desfavorecidas.

Portugal exige-nos que sejamos dignos da hora que atravessamos!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Muito Obrigado, José!


José Mourinho foi hoje eleito pela FIFA como o melhor treinador de futebol do Mundo. Numa altura em que a crise e o pessimismo parecem ter-se abatido sobre o País, sabe bem ver o trabalho de um nosso concidadão atingir tão elevado patamar e reconhecimento global.

Mas foi ainda mais significativo ver um José Mourinho, contendo a comoção que certamente lhe ía na alma, agradecer a distinção em sonoro Português e fazendo questão de sublinhar as suas origens e o seu País perante uma plateia multinacional.
Numa época sinistra em que alguns insistem em andar por aí de cócoras perante poderes e interesses estrangeiros, não hesitando em colocar o País em segundo lugar face às suas estratégias político-partidárias, sabe bem ver quem ainda tem coluna vertebral, honra na sua Pátria e coragem para enfrentar, nos mais difíceis palcos do mundo do futebol, quaisquer adversários. Que grande lição para tantos moços de fretes dos abutres que rondam, por estes dias, o nosso glorioso céu azul!...


Parabéns, José - e Muito Obrigado!

domingo, 9 de janeiro de 2011

Nação


"Uma nação forte nada tem a temer da antipatia dos estrangeiros; uma nação fraca nada deve esperar da simpatia deles".


Textos judaicos

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011


Votos que em 2011 consigamos construir o caminho da Esperança - contra os professores doutores da desgraça e os abutres que se alimentam da exploração e do medo!...

Não se deixem enganar.

Não desistam!



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Manuel Alegre - uma nova Esperança para Portugal!


"Há quem queira desistir. Há quem ache que não vale a pena e há quem simplesmente abdique dos seus direitos de cidadania, que a tanto custo foram conquistados. Mas há também depois os que não se resignam. Mesmo nas horas de dúvida e angústia sobre o sentido do seu esforço, àqueles que querem servir o país e o bem comum, basta o prazer e a honra de servir a sua Pátria. Portugal precisa de todos aqueles a quem dirijo esta mensagem: esta é a hora da mudança, em nome da razão e da justiça, em nome de um país para todos. Àqueles que desejam um novo cesarismo ou um novo homem providencial, eu digo: podem estar certos de que estamos aqui para lutar pela vitória."


Manuel Alegre, hoje, na apresentação, em Lisboa, do seu Contrato Presidencial.


Leia, aqui, o texto na íntegra.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

PISA 2009


Excelente a crónica de Fernanda Câncio publicada no DN de hoje. Transcrevo com a devida vénia:


A grande pirraça


"Os resultados do PISA 2009 são uma bofetada de luva branca dos professores na ministra que os maltratou. Aos enxovalhos, responderam com trabalho. A qualidade dos professores é a mesma, antes e depois." A ideia, lida no Twitter de Luís Azevedo Rodrigues (que se apresenta como paleontólogo), é uma caricatura das reacções que a melhoria abrupta dos resultados dos estudantes portugueses numa avaliação da OCDE que inclui 65 países está a causar. Quando não se desvaloriza a progressão - dizendo, como o "especialista" Santana Castilho, que "é um acaso" ou, como a dirigente do PSD Paula Teixeira da Cruz, "que não espelha a realidade" -, nega-se a possibilidade de a mudança verificada em relação aos anteriores estudos PISA, de 2000, 2003 e 2006, se dever a medidas tomadas por Maria de Lurdes Rodrigues, do plano de acção para a matemática ao plano nacional de leitura, das aulas de substituição ao estudo acompanhado, dos planos de recuperação de alunos com maus resultados à avaliação dos professores. Assim, se a Fenprof jura que a mudança é "mérito de professores e alunos e não de políticas educativas", o paleontólogo citado formula a teoria da pirraça: para provar à ministra que era um insulto dizer que os professores tinham de trabalhar mais e provar a sua eficácia, estes trabalharam mais e melhoraram a eficácia.

Sim, tem pilhas de graça. Mas é sobretudo doentio. Saber que, em três anos, os alunos de 15 anos portugueses, numa progressão que é a mais expressiva da OCDE, deixaram para trás as pontuações deprimentes dos anteriores relatórios e se aproximaram da média da organização - em testes, iguais para todos os países, de avaliação das competências em matemática, leitura e ciências - e que aquele que era o pior indicador da escola nacional, a relação directa entre a origem socioeconómica do estudante e os seus resultados, é finalmente vencido, com Portugal a surgir como "o 6.º país da OCDE cujo sistema educativo melhor compensa as assimetrias socioeconómicas (...), um dos países com maior percentagem de alunos de famílias desfavorecidas que atingem excelentes níveis de desempenho em leitura" devia levar toda a gente a entusiasmar-se e a tentar perceber o que contribuiu para isso, de modo a continuar o bom trabalho. Mas a reacção é de desconfiança, como quem diz: "isto só pode ser mentira". E porquê? Primeiro, porque é pecado pôr sequer a hipótese de uma coisa tão boa ser fruto de medidas governativas; segundo, porque somos uma porcaria de País, o desgraçadinho das estatísticas internacionais; terceiro, porque a escola pública é um fracasso, um sorvedouro de impostos que só produz indisciplina e analfabetos (como, aliás, os anteriores relatórios PISA "provavam"). Pôr assim em causa, de uma assentada, toda a nossa fé só pode ser uma pirraça do destino. Uma partida, sem consequências. Até porque a ministra maldita já era, se tudo correr bem as suas medidas terão o mesmo caminho."

sábado, 4 de dezembro de 2010

Rir para não chorar...


Em Rio de Mouro parece que está prestes a ser cumprida uma antiga promessa da maioria de Direita que gere a CMS - uma piscina em cada freguesia do Concelho.

Com efeito, se continuar a chover com intensidade, o enorme buraco aberto (numa zona central!) no espaço onde existia o campo de jogos do RRM, certamente dará origem a tal estrutura. E, considerando as dimensões do espaço em questão, será de categoria olímpica!...

Infelizmente, no Verão, a população não poderá usufruir de tal equipamento, uma vez que a torneira celeste naturalmente se fechará - mas os calhaus em abundância, buracos de diversas formas e irregularidades do piso que se manterão, certamente darão notável espaço de treino para equipas de BTT, gerando novo aproveitamento por parte dos fregueses.

Quanto ao antigo campo de futebol do RRM apenas resta evocar aquele grande clássico do cinema que se chama - "E tudo o vento levou"...

domingo, 28 de novembro de 2010

Uma campanha vergonhosa!



Como trabalhador da Caixa Geral de Depósitos há já cerca de 20 anos, não posso deixar de insurgir-me contra a vergonhosa campanha que, a propósito da possibilidade das Empresas Públicas poderem aplicar planos de redução da massa salarial diferenciados, tem sido feita contra aquela Instituição, nomeadamente através dos órgãos de Comunicação Social.


Sabe-se desde há muito tempo que uma mentira repetida muitas vezes começa a parecer verdade - mas, ainda assim, não deixa de ser mentira.


De uma forma muito sintética gostaria apenas de destacar os seguintes pontos:


- a Caixa Geral de Depósitos é uma Sociedade Anónima, de capital inteiramente detido pelo Estado, sendo um dos grandes bancos do nosso sistema bancário e garante efectivo da sua estabilidade, como se pode constatar pelo apoio que é chamada a prestar até a bancos privados, em momentos difíceis;


- a CGD é fonte de lucros para o Estado, lucros esses que são investidos na Economia Nacional e os vencimentos dos seus trabalhadores não pesam rigorosamente nada no Orçamento de Estado;

- tem sido repetidamente assegurado pelo Ministro das Finanças que o corte de 5% na massa salarial também será feito nas Empresas Públicas, incluindo a CGD, sendo apenas salvaguardada a possibilidade de tal ser feito em moldes que não prejudiquem o seu normal funcionamento enquanto Instituição bancária;


- a CGD actua num mercado perfeitamente concorrencial com a restante banca privada: a quem interessa criar "bancários de 1ª" e de "2ª classe"? Creio ser óbvio...

- "excepções" no âmbito do Estado sempre existiram e sempre continuarão a existir, em função da realidade de cada empresa ou organização. Recordo, por exemplo, que os professores rejeitaram ver o seu desempenho avaliado nos mesmos termos do SIADAP, sistema que abrange todos os outros funcionários públicos, com exclusão dos docentes;

- são de há muito conhecidos os "apetites" pela privatização da CGD, em tempos enunciados por algumas figuras da Direita nacional. Não espanta, assim, (embora repugne quem conhece a Instituição e nela dá o melhor do seu esforço) o conjunto de mentiras, ataques e provocações que têm surgido a reboque desta questão e o "alvo" sempre destacado que a Caixa parece constituir, como se fosse a "única" EP abrangida pelas regras aprovadas! Chegar ao desplante de comparar um Banco com a dimensão da CGD, o seu papel de referência no sistema e os lucros que continuamente tem obtido e que são fruto do trabalho dos seus empregados, com empresas públicas que acumulam prejuízos ao longo de anos a fio, se não é do domínio da ignorância pura só pode ser má fé!

- conhecem a história da Galinha dos Ovos de Ouro?... Leiam (ou releiam) e talvez entendam o que tem a ver com aquilo que alguns parecem querer fazer relativamente à CGD, mas que todos os seus trabalhadores lutarão para desmascarar e impedir, continuando a fazer da CGD o grande banco PÚBLICO que sempre foi, sólido, regido por estritos princípios éticos e marca de confiança de todos os Portugueses.

Doa a quem doer!

Uma estrada "amaldiçoada"...

Em Rio de Mouro há uma estrada que, certamente, está amaldiçoada. Com efeito, apenas o efeito de uma qualquer praga que lhe tenham rogado, pode ser a razão para que continue, após "arranjos" sucessivos, em tão mau estado.

A dita chama-se Estrada Marquês de Pombal e é uma das principais vias de ligação entre a Rinchoa / Fitares e Rio de Mouro - Estação. Durante anos a fio assemelhou-se a uma "picada africana". Depois foram feitas obras de repavimentação e ficou uma coisa estranha, com metade da via cuidada e nova e a outra metade com o pavimento antigo e remendado, para além das tampas de esgoto terem ficado bastante acima do piso, obrigando os carros a curiosas gincanas.

Há algumas semanas atrás, fruto do mau tempo, creio, abriu-se grande "cratera" num dos troços. Os serviços competentes (SMAS? CMS?) procederam à "reparação" - e, apesar de por lá terem andado durante uns dias e do trânsito ter estado parcialmente interrompido, o resultado final continua a ser um piso meio esburacado, com visíveis falhas no alcatrão, enfim, sem a qualidade final que se desejaria num troço de grande movimento. Deixo aqui o desafio - vão lá ver, porque há coisas que só mesmo vistas, contadas ninguém acredita...

Só pode mesmo ser praga rogada - e das grandes!...

domingo, 21 de novembro de 2010

Atenção aos sinais...



"Para o ambicioso, o bom êxito desculpa a ilegitimidade dos meios."


Jean Massillon

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A "guerra" das nossas vidas


Não podemos desistir. Nunca.

Esta é a “guerra” das nossas vidas.

Os tanques e os canhões e os bombardeiros chamam-se agora “crise financeira” e “mercados”, derrubam-nos as casas, o orgulho, a vontade de acordar de manhã e de repente até parece que caminhamos pelas ruas do nosso País como párias. Mas não podemos desistir. Porque outros antes de nós caíram e do pó se levantaram, os nossos avós sofreram a fome, a miséria, a perseguição e não deixaram de sonhar com um futuro melhor, morderam os lábios até fazer sangue e esconderam as lágrimas dos filhos, no escuro da noite.

A quem nos repete em cada dia que não podemos sonhar é preciso dizer – NÃO!

Foi com o sonho de alguém que um dia se decidiu acabar com a escravatura. Foi com o sonho de alguém que um dia as mulheres passaram a ser iguais, em direitos e deveres, aos homens. Foi com o sonho de alguém que um dia se construiu um foguetão e alcançou o espaço. Se Mandela não sonhasse, sobreviveria décadas preso? Se Xanana não sonhasse, Timor seria hoje em dia livre? Nascem sempre dos sonhos as mais belas realizações do Homem. Ouvi um destes dias o actual Presidente da República, Cavaco Silva, dizer que a hora não era de “sonhos” mas de aceitação da realidade. Alguns dias depois acrescentou que de nada valia “reclamar” contra os “mercados”, como se fossemos meras marionetas, sem carne, sem nervos, sem ossos, sem coração, disponíveis para que nos esventrem sem um esgar de desagrado! Que liderança é esta que nos amarra ao presente e é incapaz de mostrar a rota do futuro? Negar o direito (até a obrigação!) a sonhar é típico de um pensamento medieval, ensimesmado, até fascista!

Vamos vencer esta guerra. Temos que a vencer. Não nos perdoariam os nossos antepassados que tudo deram para construir esta Nação. Não nos perdoariam os nossos filhos e netos, pela ausência de um futuro melhor. Sabemos que alguém nos quer fazer “culpados” de algo que sempre nos ultrapassou, também sobre isso é preciso berrar bem alto que – SIM, somos culpados de trabalhar dias a fio, de procurar ter uma casa para viver, uma mesa com comida, escolas para os nossos filhos, uma vida digna para nós e para os nossos, de ter direito a descansar alguns dias nas férias e até de comprar um pequeno carro para nos deslocarmos. Somos culpados de acreditar que os nossos governantes querem sempre o melhor para nós e que os especialistas em economia e finanças sabem sempre o que fazem e não erram de forma tão colossal que coloquem o Mundo à beira de um abismo. De tudo isso somos culpados.

Mas não somos culpados do enorme “buraco” na alma do Mundo que os grandes banqueiros, os grandes especuladores, os inventores de produtos financeiros sem sentido nem forma, a corja que despede trabalhadores por e-mail e depois de falências sucessivas sempre arranja um novo e bem pago lugar num qualquer Conselho de Administração, criaram para os nossos dias. Não somos culpados da ganância alheia! Não somos culpados dos roubos cometidos por outros! Não somos culpados da desonestidade dessa canalha! E temos que gritar também isso bem alto – NÃO, NÃO SOMOS CULPADOS! SOMOS VÍTIMAS!

Não nos neguem, assim, nem o direito de sonhar, nem a obrigação de protestar. Não venham agora os ladrões dar-nos conselhos sobre sacrifícios e poupanças. Basta! Sabemos que, uma vez mais, será à nossa custa que tudo se reconstruirá. Deixem, então, que o possamos fazer com um mínimo de dignidade, essa palavra tão esquecida e arrastada pelo chão pelos poderosos deste Mundo. Olhem bem fundo nos nossos olhos e aprendam o que é saber estar à altura das circunstâncias. Não nos tapem a boca para que o coração não expluda de vez. Serão os mesmos de sempre, os que trabalham e vivem desse trabalho apenas, os que vão comer o pão que o Diabo amassou uma vez mais, serão esses a abrir as estradas do novo futuro. Serão esses a vencer esta “guerra”.

Depois poderão dizer - tentando manter os olhos secos porque a corja não merece sequer uma única das suas lágrimas – que estiveram à altura dos seus antepassados e que morrerão felizes por terem deixado um Mundo mais limpo para as gerações vindouras. Um Mundo onde um bandalho será novamente um bandalho e nunca um banqueiro. Um Mundo onde um ladrão será novamente um ladrão e nunca um governante. Um Mundo onde o sonho permitirá continuar a procurar sempre mais e melhor para todos, porque já dizia uma canção antiga que “o sonho comanda a Vida” e só os néscios ou os canalhas se permitirão negá-lo.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Um "mito" chamado Cavaco Silva


Com a devida vénia transcrevo um fabuloso ensaio de Alfredo Barroso, publicado no jornal Publico no passado dia 1 de Novembro:


Cavaco Silva, a realidade e o mito


"Devo esclarecer, antes de mais, que nunca subestimei Cavaco Silva, cujo pendor autoritário, mesclado de demagogia e populismo, e alicerçado num apurado sentido da oportunidade, fizeram dele, não só um adversário temível, mas também um dos políticos mais previsíveis que conheci em toda a minha vida activa, que já vai em quase meio século. Há, aliás, duas frases que retive na memória, da autoria de Cavaco Silva, que caracterizam bastante bem o político completamente previsível que ele é.
Uma delas foi proferida em 2005, tornou-se famosa e diz o seguinte: "Pessoas inteligentes, com a mesma informação, chegam às mesmas conclusões."
Quem tenha alguns conhecimentos de história, seja do país ou do mundo, seja das ideias ou dos factos políticos, sabe perfeitamente que tal afirmação não é verdadeira. Porque, regra geral, pessoas inteligentes, com princípios, ideias e opções políticas distintas, chegam a conclusões diferentes, mesmo quando possuem a mesma informação. É isso, aliás, que está na base dos sistemas democráticos, pluralistas e pluripartidários.Mas a frase proferida por Cavaco Silva há cinco anos é característica do discurso político dominante nos diversos partidos que alternam no poder em quase todas as democracias ocidentais. É uma frase que traduz aquilo que alguns já designam como "o fim da política".
Para políticos que dizem situar-se rigorosamente ao centro, como é o caso de Cavaco Silva, a política na sua dimensão conflitual é considerada como algo pertencente ao passado. O tipo de democracia que recomendam é uma democracia consensual, totalmente despolitizada, não partidarizada, sem confronto entre adversários, submetida aos princípios tecnocráticos e burocráticos implícitos naquilo que os banqueiros, gestores e empresários "modernos" designam por "boa governança", seja lá isso o que for.
Esta concepção aparentemente moderna teve a sua tradução histórica em Portugal com a instauração de uma "democracia orgânica" por Salazar, em 1933. Uma "democracia" em que só era consentido o partido único - a União Nacional - e em que os adversários políticos eram colocados fora da lei, considerados subversivos, perseguidos pela polícia política e forçados, muitas vezes, a passar à clandestinidade, para fugir à prisão. Claro que Cavaco Silva não quer instituir uma democracia orgânica e tem respeitado sempre as regras da democracia pluralista, ascendendo aos mais altos cargos políticos através de eleições. Mas o seu desejo ardente de uma democracia consensual, sem conflitos entre adversários, sem "ilusões" e "utopias", virada para o "futuro" e cheia de "esperança", dominada pelo discurso politicamente correcto e esvaziada do confronto de ideias - que só pode subverter o consenso -, é qualquer coisa de genético e intrínseco, que está sempre implícito (e explícito) no discurso de Cavaco Silva.
A outra frase de Cavaco Silva que retive na memória, já esquecida mas também famosa, foi proferida por ele há oito anos, em 2 de Março de 2002, durante uma conferência na Faculdade de Economia do Porto.A propósito da sustentabilidade da Segurança Social e referindo-se à quantidade de funcionários públicos em Portugal (cujo numero, diga-se de passagem, aumentou significativamente durante os dez anos em que ele foi primeiro-ministro), Cavaco Silva disse, às tantas: "Como é que nos vemos livres deles? Reformá-los não resolve o problema, porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações e, portanto, diminui também a receita do IRS. Só resta esperar que acabem por morrer."
Esta extraordinária declaração proferida por Cavaco Silva, que revela uma total insensibilidade humana, não lhe deve ser levada a mal, porque é característica dos tecnocratas da política, sempre mais preocupados com os números do que com as pessoas. Cavaco Silva é isso mesmo, um tecnocrata da política. Considera-se, acima de tudo, um economista, e foi assim, como economista, que quis ser eleito Presidente da República há cinco anos.Em reforço desta tese, não resisto à tentação de citar uma passagem da entrevista que Cavaco Silva concedeu ao "Expresso", publicada em 23 de Outubro, que ilustra bastante bem o lado acentuadamente tecnocrático, mas também burocrático, da personalidade política de Cavaco Silva.Quando diz que chamou os partidos, "na sequência da afirmação de que o Governo não teria condições para governar sem a aprovação do Orçamento do Estado", Cavaco Silva salienta: "Forneci às forças políticas toda a informação relativa às consequências de uma crise, no caso da não aprovação do Orçamento. E forneci informação bastante detalhada relativamente à dependência da economia portuguesa dos mercados financeiros internacionais." Tanta minúcia comove. Dá vontade de perguntar como é que Cavaco Silva terá fornecido aos partidos toda aquela informação. Terá sido em dossiers repletos de relatórios escritos em folhas A4? Ou ter--se-á limitado a proferir uma lição, do tipo magister dixit, aos pobres ignorantes que foram a Belém em representação dos partidos?
A minha curiosidade é grande. Mas a declaração citada revela bem que Cavaco Silva não é apenas um tecnocrata. É também um verdadeiro burocrata da política que dedica muito do seu tempo em Belém a coligir informação (em jornais, estudos, pareceres, relatórios oficiais), a qual, uma vez fornecida a políticos inteligentes, só pode, em sua opinião, obrigá--los a chegar às mesmas conclusões. É a escola do pensamento único em todo o seu esplendor. É a democracia consensual, sem conflitos e sem alternativas, elevada por Cavaco Silva a um patamar nunca antes alcançado.
2. Ao longo dos anos, tem sido construído um mito à volta de Cavaco Silva, que o próprio vem alimentando desde que exerceu as funções de primeiro-ministro, entre 1985 e 1995. Aliás, na já citada entrevista ao "Expresso", ele não perde a oportunidade de declarar, às tantas: "Eu sei bem a situação em que deixei Portugal em 1995 e tenho muito orgulho." Sem questionar o "muito orgulho" a que Cavaco Silva tem direito, é bom salientar que o balanço de dez anos de "cavaquismo" está longe de ser brilhante, tal como convém lembrar as circunstâncias excepcionais em que Cavaco Silva acedeu ao poder, dando provas do seu proverbial sentido da oportunidade, que alguns qualificam como puro oportunismo político. Refira-se, para começar, que Cavaco Silva se afastou sempre da vida política e do poder quando previa momentos difíceis (recusou-se, em 1980, a fazer parte dos governos da AD chefiados por Francisco Balsemão) e regressou à política para reconquistar o poder quando outros já tinham feito o trabalho mais difícil (Mário Soares e o Governo do "bloco central", em 1985) ou estavam a fazê-lo (primeiro governo de Sócrates, em 2005).Depois de ter sido o ministro das Finanças do primeiro governo da AD, chefiado por Sá Carneiro (VI Governo constitucional), Cavaco Silva não aceitou continuar como ministro das Finanças dos governos chefiados por Francisco Balsemão, porventura por conhecer bem, como certamente conhecia, as consequências da política económica e financeira que ele próprio tinha adoptado em 1979-1980 - a saber: perda de competitividade da economia; agravamento brutal do défice externo; enorme endividamento em dólares das empresas públicas; recusa de financiamento por parte do sistema financeiro internacional, face um défice externo recorde.
Quando estes gravíssimos problemas foram resolvidos pelo Governo do "bloco central", chefiado por Mário Soares, entre 13 Junho de 1983 e 6 Novembro de 1985 (a saber: recuperação da competitividade da economia; controlo das contas públicas; eliminação do défice externo; restauração da credibilidade do país face às instituições internacionais; abertura do processo de reprivatização da economia; assinatura do Tratado de Adesão à CEE), Cavaco Silva decidiu regressar à vida política activa, conquistando a liderança do PSD, no congresso da Figueira da Foz, derrubando o governo do "bloco central", com a conivência do Presidente da República, Ramalho Eanes, e provocando, assim, eleições legislativas antecipadas.Como primeiro-ministro, Cavaco Silva beneficiou dos excelentes resultados das políticas levadas a cabo pelo Governo do "bloco central" - designadamente, do excedente da balança de transacções correntes, da abertura do mercado espanhol propiciada pela integração na CEE e das abundantes transferências de fundos estruturais provenientes de Bruxelas - o que, naturalmente, favoreceu um crescimento rápido da economia, a descida da inflação e dos défices, e o aumento do emprego.
No entanto, conforme salienta a economista Teodora Cardoso, numa pormenorizada "análise crítica" publicada em 2005 (sob o título "Cavaco Silva, a ciência económica e a política"), o que "começou por faltar" a Cavaco Silva foi "uma orientação inequívoca, no sentido de aproveitar esta fase ímpar, mas passageira, para preparar a economia para um tipo de competição completamente diferente daquela que enfrentara no passado. (...) O caminho para Portugal não podia continuar a ser o da falta de qualificação e dos baixos salários".Teodora Cardoso esclarece o seu ponto de vista: "Ao contrário da moda recente de criticar a opção pelas infra-estruturas, não me parece que esta tenha sido um erro. Erros sim - e graves - foram a incapacidade de usar eficazmente os fundos de formação profissional; de levar a cabo uma reforma do sistema de ensino que privilegiasse as necessidades da sociedade e da economia; de proceder a um correcto reordenamento do território e a uma reforma do processo orçamental que permitisse a descentralização racional da gestão pública; ou (a incapacidade) de criar uma administração pública e parceiros sociais preparados para encaminhar o país no sentido que a integração europeia e mundial lhe impunham. Ao contrário do que às vezes se deixa entender, o facto de se construírem estradas não impedia que se melhorasse a qualificação dos portugueses. Pelo contrário, face à abundância dos fundos estruturais e ao crescimento rápido da economia e da sua capacidade de financiamento, ambas as opções eram não só possíveis como indispensáveis.
"Aproveitando "uma folga financeira irrepetível", Cavaco Silva criou um novo sistema retributivo (NSR) da administração pública, que podia ter sido a contrapartida ideal para levar por diante as reformas indispensáveis, mesmo que impopulares. Mas não foi. Cavaco Silva não quis correr riscos, e nem sequer mexeu nos múltiplos esquemas "especiais" que continuaram a proliferar durante os seus governos. Por isso mesmo, conforme conclui a professora Teodora Cardoso: "O que Cavaco Silva nos legou reduziu-se à expansão dos regimes especiais, ao reforço da rigidez e da incapacidade de gestão e inovação, e, sobretudo, a um aumento dos encargos com a função pública que correspondeu, em termos reais, à mais que duplicação da massa salarial das administrações públicas entre 1985 e 1995."
Mas os graves erros cometidos por Cavaco Silva não se ficaram por aqui. Como recordou António Perez Metelo, num artigo publicado no "DN Economia", em 12 de Julho de 2006: "Em termos de Segurança Social é bem sabido que, entre 1985 e 1995, o Estado não pagou integralmente as verbas devidas ao correcto financiamento dos sistemas não. Criou-se, aí, um défice, que acelerou as tensões à volta do financiamento sustentado de toda a Segurança Social pública." E essas verbas, esclarecia Perez Metelo, situaram-se "na casa dos milhares de milhões de euros". Antecipando as consequências dos seus erros - défices excessivos do sector público administrativo; aumento da despesa pública superior a 12%, entre 1990 e 1995; taxa de crescimento muito baixa (0,8 %, em vez dos 2,8 % que tinha prometido, entre 1991 e 1994); taxa de desemprego a crescer (superior a 7% em 1994) - Cavaco Silva, depois de alimentar o famoso "tabu", decidiu mais uma vez afastar-se, quer da chefia do governo quer da chefia do PSD, deixando a "batata quente" nas mãos de Fernando Nogueira, que lhe sucedeu como presidente do partido e acabou por ser derrotado por António Guterres nas eleições legislativas de 1995.
3. Cavaco Silva ainda disputou a eleição presidencial de 1996 - mais para tentar provar que não "fugia" do que convencido de que a ganharia - mas, uma vez derrotado, afastou-se da vida política activa e remeteu-se a um silêncio algo ruidoso. Prevendo a crise que se agravou a partir de 2001, Cavaco Silva ajudou a derrubar o governo de coligação entre o seu próprio partido e o CDS-PP (o governo de Santana Lopes), e continuou a preparar discretamente a sua nova candidatura a Belém, alimentando mais um "tabu". E quando o governo do PS (saído das eleições de Fevereiro de 2005 e chefiado por José Sócrates) tomou as medidas duríssimas e impôs as políticas de austeridade que são conhecidas, Cavaco Silva não hesitou em considerar que era chegado o momento de regressar à política activa. E a verdade é que, como diria Júlio César, regressou, viu e venceu.
Cavaco não é, de facto, um político para os momentos difíceis. Mas é um político que sabe tirar partido deles. Em relação à gravíssima crise que o país actualmente atravessa, já sacudiu a água do capote. Na declaração de recandidatura a Belém, já teve o cuidado - e a falta de pudor - de afirmar, sem se rir, que o país ainda estaria pior se não fossem os avisos e os alertas que ele dispensou com tanta generosidade, durante cinco anos. É assim que o Presidente economista pretende ultrapassar a frustração de não ter sido capaz de cumprir o que prometeu na eleição de 2005. Ou seja: com ele em Belém, o país nunca poderia chegar ao ponto a que agora chegou. Que pena não terem lido, tanto em Portugal como lá fora, todas as informações coligidas e fornecidas urbi et orbi por Cavaco Silva. Porque, se as tivessem lido, todos teriam chegado às mesmas conclusões e o mundo estaria bem melhor, porventura a caminho de amanhãs que cantam!
Os mitos são sempre muito duros e resistem bastante à realidade, por mais evidente que ela seja. Cavaco Silva sabe disso - e a direita que o quer transportar num andor, também. Esta crise brutal - somada ao inevitável parecer positivo da sua augusta família - veio de novo favorecer os desígnios de Cavaco Silva e tornar mais difícil a tarefa daqueles que o vão enfrentar. Porque agora ele já não se candidata apenas como o economista capaz de resolver as crises. Candidata-se em nome de Portugal, como ele próprio disse, sugerindo a imagem quase subliminar de partido único, numa democracia consensual totalmente despolitizada e despartidarizada. Cavaco Silva advoga "o fim da política". E isso é um perigo para a democracia."

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eça, agora!...


"Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo económico."



Eça de Queiroz