terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um segredo de Polichinelo


Aquilo que em Portugal se designa como "segredo de Justiça" já há muito que deixou de ser "segredo" e, simultaneamente, começa a ter pouco de "Justiça".

Para um leigo nestas coisas de Leis, de juristas, de Tribunais, de advogados, o chamado "segredo de Justiça" parece fácil de definir: trata-se de informação relativa à investigação de um eventual crime, que deve manter-se reservada até que haja uma decisão por parte de um Tribunal. No fundo tratar-se-á de todo um conjunto de dados que fazem parte da investigação e que devem permanecer a bom recato, na exclusiva esfera de quem investiga e de quem decide sobre as várias etapas do processo, até à sua conclusão com a emissão de uma sentença.

Mas esta é a visão de um ignorante destas matérias, daqueles que até acham que o "segredo de Justiça" se fez para defender quem esteja inocente e não para construir "culpados" por antecipação na opinião pública. Porque todos os dias surgem nos jornais, nas revistas, na abertura de Telejornais, etc, informações que, aparentemente, deveriam estar protegidas por esse tal "segredo de Justiça" e jamais se viu alguém ser acusado ou sequer punido pela óbvia falha no sistema. Porque a equação é simples: existe o tal "segredo de Justiça"; se surgem publicamente dados que não deveriam ter essa divulgação, é porque alguém os transmitiu indevidamente; se dois mais dois ainda são quatro então alguém deveria ser acusado e punido por tal violação.

Mas essa (repito) será certamente a visão de um ignorante - porque a realidade é outra e todos os dias se ri destas conclusões através das parangonas dos jornais, da voz dos locutores de noticiários radiofónicos, do olhar trocista de pivots de Telejornais.

E é assim que, dia após dia, o segredo é cada vez menos segredo e a Justiça é cada vez menos digna desse nome, restando os estilhaços de mil e uma guerras de bastidores que estropiam o carácter de quem tiver o azar de cair na engrenagem, ferem a sensibilidade de quem abomina os julgamentos sumários em formato tablóide e minam os pilares desta nossa (ainda) frágil Democracia.

Até quando?

sábado, 14 de novembro de 2009

Excertos

"Quanto às Monblanc, o que dizer? Como eu a compreendo. Adoro. Porque são óptimas, refinadíssimas e fazem a diferença. Não por se terem transformado em ícones de prestígio mas, isso sim, porque até permitem distinguir quem as merece dos ordinários que, desde locutores a comentadores, políticos, etc, não perdem a oportunidade de as exibirem, rolando-as entre os dedos, perante as câmaras… De facto, um piroso será sempre um piroso, mesmo armado de Montblanc." - in blogue Sintra do Avesso, a propósito da utilização de caneta daquela marca por parte da nova Ministra da Educação.

"Fernando Seara defende na tomada de posse uma sociedade justa, livre e solidária" - título do Jornal de Sintra, 6 de Novembro de 2009.

"CDU viabiliza maioria na Junta de Rio de Mouro - comunistas com presidência da assembleia e dois lugares no executivo" - Jornal da Região, 10 de Novembro de 2009.

"CDS/PP abandona coligação com PSD para a Junta de Freguesia de Algueirão Mem-Martins, em plena sessão de tomada de posse, queixando-se de intolerância e falta de respeito" - notícias diversas nos jornais locais.

"Ela falava, e falava, e falava, e falava. Falava pelos cotovelos. E continuava a falar. Eu sou a dona da casa. Mas aquela empregada gorda só sabia era falar, falar, falar. Onde quer que eu estivesse, lá vinha ela e começava a falar. De tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. Despedi-la por causa disso? Teria que lhe dar três meses de indemnização. Ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. Até na casa de banho: e assim e assado, e frito e cozido. Enfiei-lhe a toalha na boca para que se calasse. Não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras rebentaram-na toda por dentro." - in Crimes Exemplares, de Max Aub.

sábado, 7 de novembro de 2009

Contributos

"Um sábio chegou à cidade de Akbar, mas os habitantes não lhe deram muita importância. Conseguiu reunir em torno de si apenas alguns jovens, enquanto o resto dos habitantes ironizava com a sua presença e o seu trabalho.

Certa manhã o sábio passeava com os poucos discípulos pela rua principal, quando um grupo de homens e mulheres começou a insultá-lo. Ao invés de fingir que ignorava o que acontecia, o sábio foi até junto deles, e abençoou-os.

Ao sairem dali, um dos discípulos comentou:

- Eles dizem coisas horríveis e o senhor responde com belas palavras?...

O sábio respondeu:

- Cada um de nós só pode oferecer o que tem."


(conto tradicional / sabedoria sufi)