quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Lição



"Se os meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles."



Adlai Stevenson

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Silly Season IV


Segundo notícia publicada no Diário de Notícias de ontem, o (ainda) Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Fernando Seara, convidou o futebolista do Sporting, Marco Caneira, para candidato da coligação de Direita à Junta de Freguesia de Almargem do Bispo.

Cito parte desta deliciosa notícia (com a devida vénia para o jornalista Luís Galrão, seu autor):

"No caso de Almargem, o actual presidente da Câmara salienta que "o Marco é um cidadão como outros, natural da freguesia" e que "vai ser um grande presidente porque tem experiência de vida e da terra". O autarca admite que o jovem não tem experiência autárquica, mas considera que é irrelevante. "Há oito anos quando cheguei a Sintra a maior parte dos candidatos não tinha experiência. Além disso, ser autarca é compatível com outras actividades e há muitos presidentes que não se dedicam em exclusividade. Aliás, isso até é uma mais-valia que não haja demasiada profissionalização da política", defende Seara."

Acho que a notícia vale por si e quaisquer comentários são praticamente irrelevantes. Eu acrescentaria apenas que há até muitos Presidentes (de Junta e mesmo de Câmara) a tempo inteiro e que nem por isso logram fazer obra digna desse nome.

Mas aquilo que aqui deixo constitui, apenas, uma preocupação. Preocupação essa que não tem a ver com as capacidades autárquicas do jogador Caneira. Nem sequer com a enorme confusão que parece verificar-se, por estes dias, nesta coligação de Direita "comandada" pelo candidato Fernando Seara, a fazer fé nas notícias que vão surgindo na Imprensa.

A minha preocupação é mesmo outra - é que estas trapalhadas acabem por "desestabilizar" este jogador do meu clube, o Sporting, na véspera de importante encontro com a Fiorentina a contar para o play-off da Liga dos Campeões.

Porque tudo o resto (perdoem-me a franqueza) ainda deve fazer parte da "silly season"...

Ah, e já agora - alguém me sabe dizer se o Mantorras, agora que até tem mais tempo livre, estará também na "calha" para candidato a vereador?...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Memória


O Verão é também tempo de reflexão, de descanso, de espaço para deixar crescer outros interesses que o dia a dia vai aniquilando.

Não sei se no fim do Verão terei o pequeno livro que quero escrever. Sei, apenas, neste momento, que o "exorcismo" vai começar assim:


I


Lá ao fundo, a casa. O seu jardim onde velhos senis
passeiam, flores sem pétalas, um aroma de desinfectante no ar.
Ela não existe e ali está. Os miúdos jogam à bola na rua
e gritam muito, pelo portão os velhos espreitam
o universo paralelo que os escarrou.

Três vezes passo em frente dela
e três vezes me recuso a tocar a pequena campainha
onde os vermes começam a despontar.

Pelas janelas vislumbro sombras de espíritos
enrolados em cobertores, bocas desgrenhadas,
olhos translúcidos,
mãos como estiletes de osso apertando pacotes
de bolachas.

Toco na campainha e a ponta do meu dedo
acorda o Mundo, um silvo de bicho, abre-se a porta
e alguém pergunta “Sim?...”,
os velhos senis do jardim aproximam-se, suas faces
engelhadas de papiro, seus esgares que perderam
latitude e longitude,

desvio o olhar da porta

volto-me para trás

dentro do carro um vulto cinzento, um outro velho
imerso num mar de silêncios e vazios, corpo minguado de medos,
de doença, de respirações ansiosas na noite,
a alma regressa a espaços, tem dias,
tosse, sangue, afectos, lágrimas,

olho e não vejo

olho e não quero ver

pupilas brancas de medo

a porta aberta espera, os velhos regressaram ao deserto
de horas infindas

“Sim?...”

Estendo os braços para dentro do carro parado
e puxo aquele saco de ossos, olhos semicerrados, boca seca,
tento que movimentos esquecidos
ganhem forma, ganhem força, cravem em mim dedos
de menino envelhecido, de velho de fraldas,
arrastem os pés em metros que parecem quilómetros,

“vamos, pai?...”