terça-feira, 27 de maio de 2008

Um aviso sério


O Diário de Notícias de hoje publicou um artigo de opinião de Mário Soares que merece toda a atenção. Com a devida vénia, destaco as passagens que considero fundamentais e merecem reflexão:


- "Recentemente, cerca de 20 mil cidadãos portugueses, impulsionados pela Comissão Justiça e Paz, dirigiram à Assembleia da República um apelo aos legisladores para aprovarem uma Lei que considere a pobreza uma violação dos Direitos Humanos. Foi uma manifestação de consciência cívica e de justa preocupação moral - que partilho - quanto à pobreza crescente na sociedade portuguesa. E acrescento: a revolta quanto às escandalosas desigualdades sociais, que igualmente crescem, fazendo de Portugal, trinta e quatro anos depois da generosa Revolução dos Cravos, o país da União Europeia socialmente mais desigual e injusto, ombreando, à sua escala, naturalmente, com a América de Bush... Ora, a pobreza e a riqueza (ostensiva e muitas vezes inexplicável) são o verso e o reverso da mesma moeda e o espelho de uma sociedade a caminho de graves convulsões. Atenção, portanto."


- "Eu sei que o mal-estar social e as dificuldades relativas ao custo de vida que, hoje, gravemente afectam os pobres, mas também a classe média - e se tornaram, subitamente, muito visíveis, por força da comunicação social - vêm de fora e têm, evidentemente, causas externas. Entre outras: o aumento do preço do petróleo, que acaba de atingir 135 dólares o barril; a queda do dólar, moeda, até agora de referência; o subprime ou crédito malparado, em especial concedido à habitação (a bolha imobiliária); a falência inesperada de grandes bancos internacionais e as escandalosas remunerações que se atribuem os gestores e administradores; o aumento insólito do preço dos géneros alimentares de primeira necessidade (cereais, arroz, carne, peixe, frutas, legumes, leite, ovos, etc.); a desordem geostratégica internacional (com as guerras do Afeganistão, do Iraque e do Líbano, a instabilidade do Paquistão, o eterno conflito israelo-palestiniano e as guerras em África); o desequilíbrio ambiental que, a não ser de imediato corrigido, põe o Planeta em grande risco; a agressiva concorrência dos países emergentes, que antes não contavam; etc...Tudo isto configura uma situação de crise profundíssima a que a globalização neoliberal conduziu o Mundo, como tantas vezes disse e escrevi."


- "Vivemos num só Mundo em que tudo se repercute e interage sobre tudo.No entanto, no nosso canto europeu, deveremos fazer tudo o que pudermos, numa estratégia concertada e eficaz, para combater a pobreza - há muito a fazer, se houver vontade política para tanto - e também para reduzir drasticamente as desigualdades sociais. Até porque, como têm estado a demonstrar os países nórdicos - a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia - as políticas sociais sérias estimulam o crescimento, contribuem para aumentar a produção e favorecem novos investimentos. Este é o objectivo geostratégico para o qual deveremos caminhar, se quisermos evitar convulsões e conflitos."


- "Em Portugal, permito-me sugerir ao PS - e aos seus responsáveis - que têm de fazer uma reflexão profunda sobre as questões que hoje nos afligem mais: a pobreza; as desigualdades sociais; o descontentamento das classes médias; e as questões prioritárias, com elas relacionadas, como: a saúde, a educação, o desemprego, a previdência social, o trabalho. Essas são questões verdadeiramente prioritárias, sobre as quais importa actuar com políticas eficazes, urgentes e bem compreensíveis para as populações. Ainda durante este ano crítico de 2008 e no seguinte, se não quiserem pôr em causa tudo o que fizeram, e bem, indiscutivelmente, para reduzir o deficit das contas públicas e tentar modernizar a sociedade. Urge, igualmente, fortalecer o Estado, para os tempos que aí vêm, e não entregar a riqueza aos privados. Não serão, seguramente, eles que irão lutar, seriamente, contra a pobreza e reduzir drasticamente as desigualdades."


- "Já uma vez, nestes últimos anos, escrevi e agora repito: "Quem vos avisa vosso amigo é." Há que avançar rapidamente - e com acerto - na resolução destas questões essenciais, que tanto afectam a maioria dos portugueses. Se o não fizerem, o PCP e o Bloco de Esquerda - e os seus lideres - continuarão a subir nas sondagens. Inevitavelmente. É o voto de protesto, que tanta falta fará ao PS em tempo de eleições."

sábado, 24 de maio de 2008

Eles andam aí...


Dois dos candidatos com hipóteses de ganharem as eleições para a liderança do PSD já começaram, a pouco e pouco, a levantar a ponta do véu relativamente ao seu futuro programa eleitoral. Passos Coelho promete, com vigor, privatizar a Caixa Geral de Depósitos, velho sonho da Direita pura e dura e de quem esfrega as mãos de contente com a possibilidade de tão proveitoso negócio...para alguns. Já Manuela Ferreira Leite (que sentiu a necessidade, ainda há pouco tempo, de se declarar "muito humana"...) vai indicando que, com ela a mandar no País, o Sistema Nacional de Saúde deixará de ser universal e tendencialmente gratuito. Fora isto, o vazio quase total de ideias novas e mobilizadoras para a governação do País. É bom que as pessoas atentem em tudo isto para não se arrependerem tarde demais - como diz o povo, "eles andam aí"...

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Memórias


Memórias... Folheio velhos números que guardei do Jornal de Sintra, dos longínquos (e tão próximos...) anos de 1982 a 1984. Evoco um tempo bom de juventude onde tive o prazer (e o privilégio) de colaborar com aquele jornal, fazendo um pouco de tudo, desde entrevistas a reportagens, pequenos artigos de opinião, etc. Alguns deles assinados conjuntamente com aquela que hoje é minha mulher, Lúcia Pereira, e com quem na altura comecei a namorar. Como o tempo passou... Recordo nomes: Maria Almira Medina e o seu olhar vivo de menina-grande; José Gutierrez, grande jornalista de Sintra, residente nas Mercês durante muitos e bons anos e que, infelizmente, já não se encontra entre nós; José Alfredo da Costa Azevedo e as suas mil e uma histórias de Sintra, a sua humildade serena, os seus olhos de luz; Mestre Anjos Teixeira, o homem do Mundo, o artista de mãos esguias sempre fazendo pequenos desenhos em guardanapos de papel, em pequenas folhas de bloco-notas que infelizmente não guardei... Pessoas que conheci, com quem pude conviver, com quem aprendi tanta coisa sobre Sintra, que vi debater mil e um assuntos, pessoas com um amor sem limites por esta terra, sábios da Vida e dos homens, generosos na partilha com os jovens, sem sombra da arrogância distante de tantos que hoje em dia se acham muito importantes e não passam de meras figuras de papelão... Que saudade... Confesso que ainda hoje, quando me detenho junto da vitrine, no Palácio Valenças, onde se encontram expostos alguns dos objectos pessoais de José Alfredo, sobretudo a medalha de Ouro do Município que lhe foi atribuída, sinto um pequeno nó na garganta... Memórias...