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sexta-feira, 5 de março de 2010

Intervalo


Quando se tem alguém que amamos numa mesa de operações, o Mundo lá fora pára completamente. Esta semana isso aconteceu com a minha filha mais velha - e realmente tudo o resto deixou de fazer sentido.

Regressada a casa, sinto que volto a ter, novamente, um pouco de chão debaixo dos pés.

Que venha o Sol, agora.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Lição de Vida - 1


"Quem trama desventuras para os outros estende armadilhas a si mesmo"



Esopo

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O PS e a defesa da Liberdade e da Democracia - 2

Bem prega Frei Tomás...

"Pedro Santana Lopes, presidente do grupo parlamentar: o Presidente da República Jorge Sampaio vetou o diploma que criava o Gabinete de Informação e Comunicação na dependência directa do Primeiro-Ministro Santana Lopes. Como disse o então Presidente da República, na sequência do parecer Alta Autoridade para a Comunicação Social, «não há défice, antes excesso de presença estatal e governamental nos meios de comunicação». E o Presidente disse mais: «o reforço dos cidadãos na vida política e a necessidade de se informarem sobre as decisões do Executivo deve ser prosseguido através da preservação e incentivo do pluralismo na comunicação, da liberdade de imprensa e do confronto de opiniões» e não pela criação de um novo serviço administrativo de publicitação da actividade do Governo.

Nuno Morais Sarmento: Interveio publicamente no sentido de acabar com o programa cultural da RTP2 Acontece, apresentado pelo jornalista Carlos Pinto Coelho, lamentando que tivesse uma audiência tão baixa, e referindo que o dinheiro gasto no programa daria «para pagar uma volta ao mundo aos poucos telespectadores que o vejam».


Rui Rio: são vários os exemplos de desrespeito pela liberdade editorial da comunicação social. Recentemente, colocou no site da Câmara Municipal do Porto um vídeo com imagens do director adjunto do Jornal de Notícias a manifestar-se «contra a câmara». No texto que descreve o vídeo lê-se: «O Jornal de Notícias voltou, nas últimas semanas, a dar maior visibilidade à sua oposição à Câmara do Porto, tendo o Director Adjunto, David Pontes, participado activamente na manifestação contra Rui Rio à porta do Rivoli». As práticas de vigilância política à comunicação social feitas por este titular de um cargo político institucional não se ficam por aqui. No site, em texto não assinado, a Câmara, enquanto tal, insurge-se também contra a «recente contratação de Luís Costa para passar a escrever semanalmente nas páginas do Jornal de Notícias. Costa foi cronista do jornal Público ao longo dos últimos anos, tendo durante esse tempo utilizado essa coluna para permanentes ataques à CMP e ao seu Presidente.


E Marques Mendes? Três Verdadeiros Momentos Chávez: Marques Mendes fez parte de um Governo que foi directamente responsável pela atribuição de licenças de televisão. É co-autor do “Regime da actividade de televisão”, a Lei n.º 58/90, de 7 de Setembro, de acordo com a qual a atribuição das licenças fazia-se por resolução do Conselho de Ministros, decidindo o Governo a entrega de alvará "ao candidato que apresentar a proposta mais vantajosa para o interesse público, desde que este tenha obtido o parecer prévio da Alta Autoridade para a Comunicação Social". Em 8 de Agosto de 1991, a Alta Autoridade para a Comunicação Social divulgou o seu Parecer prévio sobre os processos de candidatura aos canais privados de televisão: «entende a AACS que os três candidatos reúnem os requisitos mínimos necessários para a atribuição das licenças postas a concurso». Em Fevereiro 1992, o XII Governo Constitucional estava pois de mãos livres para decidir a atribuição das licenças de televisão à SIC e à TVI. Pelo prazo de 15 anos. Com a nova legislação em vigor este risco de controlo governamental já não existe. E ainda bem.

Marques Mendes foi co-responsável pelo Regulamento de Segurança e Acesso da Assembleia da República. Era Ministro Adjunto, coadjuvado pelo secretário de Estado da juventude e pelo secretário de Estado dos assuntos parlamentares (Luís Filipe Menezes). Mais: tinha a pasta da comunicação social. O regulamento visava limitar a circulação - e como tal as condições de trabalho - dos jornalistas no parlamento. Em Abril de 1993, Pacheco Pereira, então membro da direcção da bancada do PSD, agora paladino das liberdades e ideólogo da Dr.ª Manuela, justificava a aprovação do regulamento com «uma sucessão de incidentes», entre eles «filmagens e fotografias de deputados nas instalações sanitárias ou a comer, violação da privacidade de gabinetes, entrevistas e filmagens forçadas a deputados e funcionários parlamentares, versões diversas de “apanhados”». Está tudo no livro “O nome e a coisa, textos dos anos 80 e 90.

Marques Mendes, ministro da Propaganda. Segundo Maria João Seixas, que trabalhou na RTP: «No tempo em que o Dr. Marques Mendes tinha a pasta da comunicação social, eu acompanhava de perto a vida da RTP e vim a saber da disponibilidade de jornalistas e gestores para telefonemas que determinavam a agenda dos telejornais.» (in “Um Outro Olhar”, programa da Antena 2, 20 de Abril de 2007) O próprio ex-colega de Marques Mendes, Nuno Morais Sarmento, corrobora esta ideia: «Em relação a esse período não há “fumo sem fogo”…Acho que nessa altura havia uma relação promíscua com a comunicação social.» (Diário de Notícias, 26 de Abril de 2007). Este hábito de telefonar para a RTP ficou-lhe. Na edição de 16 de Junho do Expresso lê-se o seguinte: «Marques Mendes não quis acreditar quando soube que o discurso que fez na reunião do PPE a que presidiu nos Açores não passou nem no telejornal do almoço nem no da noite, ao contrário do que aconteceu com os canais privados. E a queixa foi transmitida telefonicamente ao director da RTP.»


Miguel Abrantes - in blogue Câmara Corporativa

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O PS e a defesa da Liberdade e da Democracia - 1

Julho de 1975. Grande comício na Fonte Luminosa, em Lisboa, organizado por António Guterres e tendo como oradores Mário Pires, da Comissão de Trabalho do PS, Lopes Cardoso, presidente do grupo parlamentar do PS na Assembleia Constituinte, Luís Filipe Madeira, deputado e antigo governador civil de Faro, Alfredo Carvalho, deputado e operário da Lisnave, Marcelo Curto, também deputado, Salgado Zenha, ministro da Justiça demissionário e, no final, Mário Soares.

A intervenção de Soares foi um dos momentos mais determinantes desse Verão Quente de 1975 e serviu para marcar a posição do PS em relação ao «Documento-Guia» da Aliança Povo-MFA, que tinha sido aprovado em 8 de Julho e que levara os ministros socialistas a saírem do 4.º Governo Provisório, provocando a sua queda. Eis um excerto dessa intervenção:

"A verdade é que a vossa presença aqui, o vosso entusiasmo ao longo deste comício, o vosso espírito de militância, a vossa confiança num partido de esquerda, no Partido Socialista, que é o nosso Partido, pois a vossa presença foi a prova de que nós vencemos e que aquilo que a cúpula dementada do PCP e os irresponsáveis da Intersindical queriam não foi possível. Eles queriam amordaçar a voz do Povo que será ouvida pelas ruas do nosso país. A vossa presença torna evidente um facto extraordinário que vai ter profundas consequências na vida política portuguesa. Em primeiro lugar ela torna patente que não é possível continuar com essa técnica de chamar reaccionários e fascistas a tudo o que não é comunista do PCP ou apaniguado, ou do filhote MDP. Esta demonstração formidável (e mais formidável ainda pelos obstáculos que se levantaram) prova que nada pode vencer a determinação popular de estar connosco.
Tanto mais que não dispomos da Televisão, nem de rádio, nem dos jornais de Lisboa. Desse Século e desse Diário de Notícias que são o Pravda e o Izvestia portugueses. Mas exactamente porque foi levantada uma operação de propaganda sem precedentes, uma campanha de boatos para intimidar a população, dizendo que haveria desordens, que rebentariam bombas, que estaria aqui a contra-revolução, e outras patranhas do mesmo género: apesar de toda essa campanha, nós pudemos estar aqui sem dispor dos meios de comunicação social».

Contra a tentativa de alguns de colocarem em causa o recente regime pluripartidário, o PS saiu para a rua e esteve na primeira fila da defesa da Democracia e da Liberdade. Ontem e sempre!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Hás-de me dizer...


Notícia do "Publico" - 16 de Maio de 2002



"Assinado em Maio de 1994


Gestão PSD pagou "acordo milionário" a Moniz


Por João Pedro Henriques, Ana Sá Lopes

A administração da RTP nomeada pelo último governo PSD fez um acordo com José Eduardo Moniz, após a cessação do contrato de trabalho que ligava o ex-director da televisão pública desde 1977, que se traduziu naquilo a que hoje o ministro Morais Sarmento, poderia chamar "contratos milionários": tratava-se de um contrato para produzir um mínimo de 60 horas de programação por ano, um contrato de exclusividade pessoal e colaborações remuneradas autonomamente.

Logo na cláusula primeira do contrato assinado em 10 de Maio de 1994, a que o PÚBLICO teve acesso, "a RTP compromete-se, desde que salvaguardados os adequados padrões de qualidade, a encomendar programas para televisão ao 2º outorgante [José Eduardo Moniz], num mínimo de 60 (sessenta horas/ano), a preços correntes no mercado e cujo crescimento não deverá ser superior a 50 por cento da evolução da taxa de inflação". O acordo não especifica a MMM, mas diz que "a produção dos programas encomendados caberá ao 2º outorgante ou a empresa do sector, na qual o 2º outorgante tenha, no mínimo, a responsabilidade de produção". Ali se estabelece que "o pagamento do preço será efectuado, o mais tardar, no prazo de 30 dias após a emissão de cada programa, sem prejuízo de esquemas de pagamento fraccionado, à medida da execução dos trabalhos, quando a natureza dos programas, atentas as práticas correntes no mercado, o imponha".


O contrato de exclusividade obriga a RTP a pagar a Moniz, "a título de contrapartida do exclusivo da sua disponibilidade" a quantia de 870 mil escudos mensais durante o primeiro ano de vigência do contrato e "em cada um dos anos seguintes, a importância mensal devida ao ano imediatamente anterior, acrescida de 10 por cento". Para além do pagamento da exclusividade, "a RTP compromete-se, ainda, a garantir" a José Eduardo Moniz "a sua intervenção, designadamente como coordenador, apresentador ou autor, em um mínimo de 26 programas anuais, durante toda a vigência do contrato". Estas colaborações, como estipula o texto assinado a 9 de Maio de 1994, têm remunerações autónomas "de acordo com os valores praticados no mercado, tendo em conta a natureza e periodicidade dos programas e, no mínimo, na base de 550 mil escudos por programa, no 1º ano de vigência do contrato e, nos anos seguintes, da quantia correspondente ao valor mínimo imediatamente anterior, acrescido de 10 por cento".


Estas remunerações seriam pagas, segundo o contrato, oito dias após a emissão de cada programa. Na mesma altura em que assinou o contrato com a RTP (9 de Maio de 1994) há um documento assinado pelo Conselho de Administração a confirmar ter recebido por parte da empresa a quantia de cinco mil contos para efeitos de "pagamentos confidenciais". Terá sido uma quantia anexa ao acordo com que José Eduardo Moniz, actual director da TVI, cessou o seu contrato de trabalho com a televisão do Estado. Depois destes contratos, a RTP não poderia dispensar os serviços de Moniz. Aliás, o governo PS desejou fazê-lo, mas o contrato previa naturalmente uma indemnização, caso fosse denunciado pela RTP nos três anos de vigência do acordo, que a nova administração não se arriscou a pagar. 1,2 milhões de contos.


O contrato de produção de programas obrigava a empresa em que José Eduardo Moniz "tenha, no mínimo, a responsabilidade da produção" a "manter padrões de qualidade adequados ao prestígio da RTP". Entre 1993 e 1998, a MMM facturou cerca de 1,2 milhões de contos fornecendo séries (sobretudo "sitcoms") e programas à RTP. Providenciou o "86-60-86" de Sofia Aparício (510 mil contos), "A mulher do sr. ministro" (390 mil contos), "Tudo ao molho e fé em Deus" (52 mil contos), "Queridas e Maduras" (98,8 mil contos) e "Débora" (169 mil contos), entre outros.


Em 1994, Moniz vendeu a sua quota na produtora para que a sua mulher, Manuela Moura Guedes, eleita então deputada pelo CDS/PP, não visse o seu mandato declarado incompatível (os deputados não podem ter contratos com o Estado nem directa nem indirectamente, através de familiares directos, como era o caso). Quando Manuela Moura Guedes deixou o Parlamento (em ruptura com Manuel Monteiro), Moniz voltou a readquirir a quota. Em Setembro de 1998 voltou a vendê-la, dado o contrato de exclusividade que assinou com a TVI, na altura dominada pelo consórcio Sonae/Lusomundo/Venevision. Carlos Noivo, antigo quadro da RTP, tornou-se então o único proprietário da produtora."

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"Expresso" - 27 de Agosto de 2005


Mário Crespo nasceu em Coimbra. O pai, funcionário do Banco Nacional Ultramarino, e a mãe, professora na Escola Comercial, mudaram-se para Lourenço Marques ainda o seu único filho era bebé de colo. Mário fez todo o liceu na capital moçambicana e só quando a vida académica surgia à sua frente se mudou para a metrópole. Aluno interno no Colégio Pio XII, hesitava entre Medicina e Engenharia, até que foi alistado no Serviço Militar Obrigatório. «O que até acabou por ser melhor, porque não me decidia. Pedi transferência para Moçambique e, como tenho muita sorte, acabei no gabinete de imprensa de Kaúlza de Arriaga, o comandante chefe das Forças Armadas em Moçambique.»


As hesitações acabaram. Em Abril de 1974, acabado de sair da tropa, encontrou emprego em Joanesburgo, como estagiário da rádio da South African Broadcasting Corporation (SABC). Um par de anos depois, a televisão foi inaugurada na África do Sul e o pessoal da redacção da rádio era chamado a fazer uns biscates no ecrã. Mas, em 1982, a África do Sul do «apartheid» tornou-se claustrofóbica. «Chegou a haver edições da ‘Newsweek’ censuradas. E a sociedade era muito calvinista». Havia uma vaga na Voz da América, em Washington, mas profissionalmente pouco entusiasmante. Crespo sondou a RTP. Também estavam a abrir vagas. Quando chegou à redacção da televisão pública, Mário integrou-se imediatamente. «Éramos muito próximos. Fiquei amigo do José Eduardo Moniz, da Manuela Moura Guedes, do Sousa Tavares, de toda a gente. O ambiente era óptimo, de uma camaradagem que se estendia para fora da redacção».


(…)De regresso à RTP, já não para a 2, mas para o «Jornal de Sábado» na RTP 1, ficou «sob a protecção e tutela do José Eduardo Moniz». (...) O segundo regresso à RTP, depois de Washington, seria, no entanto, bem mais amargo. A visita do então primeiro-ministro António Guterres aos Estados Unidos foi o seu último trabalho como correspondente. Logo a seguir chegou a ordem da administração da RTP para voltar imediatamente a Lisboa. A família - com dois filhos de 10 e 13 anos «perfeitamente integrados nas escolas» - fez as malas e despediu-se da vida na América num ápice. «Foi muito traumático para eles», lamenta. A única filha, com mais de 18 anos, já matriculada em Direito, na Universidade Clássica, não sentiu o abalo.


Em Lisboa, Mário e a administração entraram num período de litígio. «Puseram-me vários processos disciplinares. Um deles, que acabaria por ser retirado, foi por ter escrito um artigo em que dizia o que devia ser a televisão pública e outro por ter telefonado para o ‘Fórum’ da TSF a dizer que o dr. Soares não devia ter um programa de entrevistas na RTP quando era candidato às eleições europeias». (…)Arons de Carvalho, o então secretário de Estado com a tutela da Comunicação Social e actual deputado socialista, visado directamente pelas críticas, recusou sempre publicamente a ideia de que o jornalista tivesse sido vítima de censura. Diz, apenas, laconicamente: "O que poderia dizer do Mário Crespo é tão desagradável que prefiro ficar calado". (..)


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Notícia em vários órgãos de Comunicação Social - 1 de Fevereiro de 2010


"Mário Crespo diz ter sido «ameaçado» por José Sócrates"


Foi durante um almoço, na última terça-feira, antes da apresentação do Orçamento de Estado, que Mário Crespo surge numa conversa entre Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e um «executivo da televisão».


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Notícia jornal "I" - 4 de Fevereiro de 2010


"Francisco Pinto Balsemão, Paulo Portas e Mário Crespo receberam o convite de Manuela Moura Guedes e aceitaram ser testemunhas no processo-crime da jornalista da TVI contra o primeiro-ministro, José Sócrates. Moura Guedes explica ao i as razões que a levaram a convidar Pinto Balsemão e Paulo Portas: "Foram os dois jornalistas e políticos, e em ambas as condições sempre respeitaram a liberdade de informação." E acrescenta: "Francisco Pinto Balsemão é o melhor patrão da comunicação social. Fossem todos como ele e Portugal seria diferente de certeza. Veja-se agora o caso que envolveu Mário Crespo."


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"Quando eu nascer para a semana ó mana,


quando eu nascer para a semana


hei-de ouvir o teu parecer


hás-de me dizer


se é cada coisa para seu lado


ou se isto anda tudo ligado"



Sérgio Godinho



terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O "bufo"


O "bufo" , lembram-se dele?...

Cobarde, mesquinho, soez, o "bufo" está sempre disponível para prestar serviço a quem lhe pague ou proteja. Ouvidos alerta, olhar enviesado, língua afiada, o "bufo" não tem ética, não tem limites, não tem pruridos. Durante o Estado Novo era um aliado precioso da terrível PIDE e não olhava a meios para lamber as botas dos senhores do Regime. Nas empresas veste o fato do empregado zeloso que se faz amigo dos colegas apenas para ver se criticam o chefe, a quem obviamente o "bufo" corre a contar o que ouviu e até aquilo que nunca ninguém disse mas ele inventa facilmente. Está por todo o lado - como as pulgas ou as melgas.

Obviamente que o podemos encontrar por aí, até no restaurante, fingindo ler a ementa - porque o "bufo" adapta-se a qualquer "habitat" e todo o cuidado é pouco.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"Faz o que digo, não o que faço..."

Veio na Comunicação Social: Manuela Ferreira Leite declarou como rendimentos, em 2008, 82.988,88 euros como administradora não executiva no Banco Santander de Negócios; 31.245 euros de trabalho independente; e 114.600,28 euros de pensões acumuladas (!) pelas suas passagens pelo Governo, Parlamento e Banco de Portugal.

Isto é - Manuela Ferreira Leite ganhou mais, apenas em pensões acumuladas, do que José Sócrates pela sua actividade enquanto 1º Ministro!...

Obviamente que não está em causa a legalidade desta situação e certamente MFL terá todo o direito a receber todo este dinheiro de pensões acumuladas. Mais: não será a única a estar nesta situação e certamente existirão outros políticos, de outros partidos, em idênticas circunstâncias.

O que aqui está em causa é outra coisa. É o espírito da velha e centenária República, aquela que defende como valores centrais a liberdade, igualdade e fraternidade, como exemplarmente evocava ontem, em sessão do PS em Queluz, com a presença de Francisco Assis, o meu amigo e camarada Miguel Portelinha. O que aqui está em causa é a capacidade de alguns defenderem para os outros sempre mais sacrifícios e mais rigor, sendo que normalmente esses "outros" são usualmente anónimos funcionários públicos que dão o melhor de si e ganham o salário mínimo e ainda são considerados "privilegiados". O que aqui está em causa é muito mais do que a simples constatação de um facto ou de um direito legalmente adquirido - e está na hora de muita gente que anda na política há anos a fio e que conduziu o País para a situação em que estamos, entender que o ruído já é ensurdecedor.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Verdade e aparência


"Quem só é homem de bem porque os outros o ficarão a saber e porque o estimarão mais depois de o ficarem a saber, quem só quer agir bem na condição da sua virtude chegar ao conhecimento dos homens não é homem de quem possamos obter grandes serviços. (...) Não é para alarde que a nossa alma deve desempenhar o seu papel; é dentro de nós, no íntimo, aonde outros olhos não chegam excepto os nossos: ali ela nos protege do temor da morte, das dores e mesmo da desonra; tranquiliza-nos contra a perda dos nossos filhos, dos nossos amigos e das nossas fortunas, e, quando a ocasião se apresenta, também nos conduz para os acasos da guerra. Não por algum proveito, mas pela honra da própria virtude (Cícero). Esse proveito é muito maior e muito mais digno de ser desejado e esperado do que as honras e a glória, que são apenas um julgamento favorável que fazem de nós."


Montaigne, "Ensaios"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Promessas, promessas...


"Orçamento do Estado 2010


PSD deixa cair proposta para alargar subsídio de desemprego


A direcção do grupo parlamentar social-democrata mandou retirar da agenda do debate de amanhã a sua proposta para aumentar em seis meses o prazo de atribuição das prestações de subsídio de desemprego que se esgotem em 2010, apurou o Negócios."


in Jornal de Negócios, hoje


A verdade é como o azeite, vem sempre à tona - creio que a demagogia também... Ou então alguém fez mal as contas e prometeu o que não podia!...

domingo, 17 de janeiro de 2010

O Haiti mora aqui


Mãos certamente erguidas no ar quando a terra tremeu e o medo se passeou nas ruas. Minutos que pareceram horas, gemidos, gritos, dor. Hoje o Haiti "mora" novamente aqui. Aqui na nossa estupefacção, na nossa mágoa, na nossa impotência de formigas urbanas perante a força desta mãe-Terra. O Haiti que Caetano canta quando ligamos o rádio na manhã chuvosa e ouvimos as primeiras notícias ainda de olhos semicerrados. Nas mãos com que conduzimos o carro para o trabalho há um tremor ligeiro que teima em não passar, à medida que nos apercebemos da dimensão da tragédia.

Mãos. Mãos de mães que afagam crianças mortas. Mãos de velhos tentando tapar invisíves lágrimas porque ao corpo tudo agora falta, comida, água, e os ossos, a pele, o cérebro, o coração reservam toda a réstia de precioso líquido na tarefa de sobreviver. Mãos que continuam a juntar-se numa oração numa língua antiga a um Deus que parece ter-se esquecido que tanto sofrimento de tantos anos não merecia agora um tão cruel castigo. Mãos que resgatam gente dos escombros, respirando poeira, cuspindo pedras, sorrindo porque a Vida lhes deu nova oportunidade. Que recebem pacotes de bolachas distribuídas por soldados da ONU e os guardam nos farrapos que lhes cobrem o corpo como se preservassem barras de ouro. Uma menina com 4 ou 5 anos sorri feliz para a mãe porque conseguiram alguns desses pacotes, a vida continua e sobreviver é um exercício que rapidamente nos revela o artifício de todas as nossas convenções e berloques sociais...

Nestes dias do nosso Inverno, por entre as queixas da chuva que já cansa e da eterna "crise" com que sempre vivemos e que para tudo parece servir de alibi ou justificação paralisante, o Haiti "mora" novamente aqui. Entra-nos pelos olhos, revolve-nos as entranhas, cria momentos ainda há semanas atrás impensáveis como quando ouvimos dizer que o governo de Cuba abriu o seu espaço aéreo para deixar passar os aviões de ajuda às vítimas do sismo que ostentam nas asas a bandeira "inimiga", a bandeira dos Estados Unidos da América. Ou quando um qualquer fanático religioso, do pé para a mão, resolve utilizar a desgraça de tão miserável gente para falar em "castigo" por "pactos com o Demónio", escorados num passado de vudu, fumo de charuto negro, galinhas escorrendo sangue e quadros sépia de um velho combate colonial. Luz e sombras.

Mãos. Aquelas que esperam as nossas. Mãos sujas, mãos feridas, mãos gretadas, mãos multicores. Mãos que esperam o aperto forte das nossas, agora, já. Porque o Haiti é, por estes dias, um "abalo" para tudo aquilo que achamos garantido no dia a dia e para a lamechice gratuita com que tantas vezes iludimos a nossa inércia.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Natal


"(...) Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão.

A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus o conduzissem, por seu mando a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.

A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!E a mãe, em soluços:– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:– Mãe, eu queria ver Jesus...E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:

– Aqui estou."
"
excerto de O Suave Milagre" - conto - Eça de Queiroz

Um Santo e Feliz Natal para todos.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Citação


"Admiram-se às vezes certas pessoas de que um autor medíocre seja normalmente o triunfador do seu tempo. Mas o autor medíocre é que é admirado pelos medíocres. E a mediocridade é o que há de melhor distribuído pelos homens".


Vergílio Ferreira

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Até quando?...

A voragem mediática, a maledicência gratuita e a rapidez com que tudo se apaga e esquece, são marcas (pela negativa) do Mundo em que vivemos.

Envolvidos, hoje em dia, num estranho "clima" com laivos quase pidescos, pantanoso, por vezes roçando a esquizofrenia, acordamos todos os dias com uma única certeza: as notícias de hoje serão ainda piores do que as de ontem, chafurdarão mais fundo, confundirão mais o cidadão comum. Nem uma réstia de esperança, nem um sinal positivo, nem um esboço de caminho - apenas o "bota-abaixo" como princípio, a suspeição como arma e o negrume como horizonte.

Em Portugal temos um partido que devia constituir-se como alternativa de governação ao PS, que devia surgir junto do eleitorado com as suas propostas diferenciadas para governar o País, mas que, não o fazendo, já não hesita em utilizar a vulgaridade dos tablóides ou o vómito do julgamento na praça pública naquilo que se designa como "combate político". Parece que, não tendo conseguido ganhar as últimas eleições legislativas nas urnas, o PSD pretende "ganhá-las" um destes dias através da corrosão do carácter dos seus adversários políticos, com o Primeiro-Ministro à cabeça, ele que certamente já terá direito a entrar no Guiness como o político com o maior número de "acusações", "suspeições" e "investigações", desde a vida privada à pública, de todo o sempre!

Aliás, de política (no sentido mais nobre da palavra) já desde as eleições que pouco fala o PSD - mas apenas de "escutas", de processos, de Tribunais, de suspeitas, de diz-que-disse, de lamentações, de tricas sobre a liderança que não tem ou sobre aquela que continua a procurar, etc, etc, etc.

Fora de tudo isto há um País para governar. Um País que não se "congela" para assistir a este desfile de monstruosidades. Um País que tem que ter ânimo, esperança, projectos que lhe apontem o futuro. Um País que não pode estar refém de estratégias partidárias de baixo coturno. Um País com gente real, com problemas concretos, que exigem o arregaçar de mangas e não a comiseração, o desalento, o encolher de ombros.

A situação seria diferente (para melhor) se o PS tivesse obtido nova maioria absoluta? Creio convictamente que sim. Constatou-se que, afinal, nenhum partido da chamada Oposição queria dialogar sobre nada com o PS, mas apenas impôr-lhe condições ou limitar-lhe a actuação. Ninguém se mostrou disponível para trabalhar, em conjunto com o Governo eleito, numa alternativa que gerasse maior estabilidade governativa. Afinal, depois de tantas acusações de "arrogância" dirigidas ao anterior Governo, aquilo a que assistimos nos últimos meses foi à intransigência mais absoluta por parte de quem não ganhou as eleições para tentar condicionar as opções e caminhos que o Povo Português colocou em primeiro lugar. A Vida desmascara sempre estas situações...

Resta a memória dos factos para confrontar a miséria intelectual de quem não tem projectos, nem opções, nem rumos novos para os Portugueses, mas apenas tédio, medo, enfado ou suspeitas caluniosas para lançar ao vento - por isso aqui deixo o acesso a documento da Fundaçao Res Publica que é bem exemplificativo daquilo que foram as marcas da governação socialista com maioria absoluta e que tantos se afadigam em esconder ou ignorar, nestes tempos de cinza.

sábado, 14 de novembro de 2009

Excertos

"Quanto às Monblanc, o que dizer? Como eu a compreendo. Adoro. Porque são óptimas, refinadíssimas e fazem a diferença. Não por se terem transformado em ícones de prestígio mas, isso sim, porque até permitem distinguir quem as merece dos ordinários que, desde locutores a comentadores, políticos, etc, não perdem a oportunidade de as exibirem, rolando-as entre os dedos, perante as câmaras… De facto, um piroso será sempre um piroso, mesmo armado de Montblanc." - in blogue Sintra do Avesso, a propósito da utilização de caneta daquela marca por parte da nova Ministra da Educação.

"Fernando Seara defende na tomada de posse uma sociedade justa, livre e solidária" - título do Jornal de Sintra, 6 de Novembro de 2009.

"CDU viabiliza maioria na Junta de Rio de Mouro - comunistas com presidência da assembleia e dois lugares no executivo" - Jornal da Região, 10 de Novembro de 2009.

"CDS/PP abandona coligação com PSD para a Junta de Freguesia de Algueirão Mem-Martins, em plena sessão de tomada de posse, queixando-se de intolerância e falta de respeito" - notícias diversas nos jornais locais.

"Ela falava, e falava, e falava, e falava. Falava pelos cotovelos. E continuava a falar. Eu sou a dona da casa. Mas aquela empregada gorda só sabia era falar, falar, falar. Onde quer que eu estivesse, lá vinha ela e começava a falar. De tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. Despedi-la por causa disso? Teria que lhe dar três meses de indemnização. Ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. Até na casa de banho: e assim e assado, e frito e cozido. Enfiei-lhe a toalha na boca para que se calasse. Não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras rebentaram-na toda por dentro." - in Crimes Exemplares, de Max Aub.

sábado, 7 de novembro de 2009

Contributos

"Um sábio chegou à cidade de Akbar, mas os habitantes não lhe deram muita importância. Conseguiu reunir em torno de si apenas alguns jovens, enquanto o resto dos habitantes ironizava com a sua presença e o seu trabalho.

Certa manhã o sábio passeava com os poucos discípulos pela rua principal, quando um grupo de homens e mulheres começou a insultá-lo. Ao invés de fingir que ignorava o que acontecia, o sábio foi até junto deles, e abençoou-os.

Ao sairem dali, um dos discípulos comentou:

- Eles dizem coisas horríveis e o senhor responde com belas palavras?...

O sábio respondeu:

- Cada um de nós só pode oferecer o que tem."


(conto tradicional / sabedoria sufi)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Fábula


Hoje gostaria de partilhar uma "fábula" engraçada que recebi na minha mailbox:


"A Serpente e o Pirilampo"


Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um pirilampo. Ele fugia com medo da feroz predadora, mas a cobra não desistia. Um dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:

- Posso fazer três perguntas?

- Podes. Não costumo abrir esse precedente, mas já que te vou comer, podes perguntar.

- Pertenço à tua cadeia alimentar?

- Não.

- Fiz-te algum mal?

- Não.

- Então porque é que me queres comer?

- PORQUE NÃO SUPORTO VER-TE BRILHAR!!!"

sábado, 17 de outubro de 2009

Reflexão




"Os que vencem, não importa como vençam, nunca conquistam a vergonha"


- Nicolau Maquiavel -

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Lição



"Se os meus inimigos pararem de dizer mentiras a meu respeito, eu paro de dizer verdades a respeito deles."



Adlai Stevenson

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Memória


O Verão é também tempo de reflexão, de descanso, de espaço para deixar crescer outros interesses que o dia a dia vai aniquilando.

Não sei se no fim do Verão terei o pequeno livro que quero escrever. Sei, apenas, neste momento, que o "exorcismo" vai começar assim:


I


Lá ao fundo, a casa. O seu jardim onde velhos senis
passeiam, flores sem pétalas, um aroma de desinfectante no ar.
Ela não existe e ali está. Os miúdos jogam à bola na rua
e gritam muito, pelo portão os velhos espreitam
o universo paralelo que os escarrou.

Três vezes passo em frente dela
e três vezes me recuso a tocar a pequena campainha
onde os vermes começam a despontar.

Pelas janelas vislumbro sombras de espíritos
enrolados em cobertores, bocas desgrenhadas,
olhos translúcidos,
mãos como estiletes de osso apertando pacotes
de bolachas.

Toco na campainha e a ponta do meu dedo
acorda o Mundo, um silvo de bicho, abre-se a porta
e alguém pergunta “Sim?...”,
os velhos senis do jardim aproximam-se, suas faces
engelhadas de papiro, seus esgares que perderam
latitude e longitude,

desvio o olhar da porta

volto-me para trás

dentro do carro um vulto cinzento, um outro velho
imerso num mar de silêncios e vazios, corpo minguado de medos,
de doença, de respirações ansiosas na noite,
a alma regressa a espaços, tem dias,
tosse, sangue, afectos, lágrimas,

olho e não vejo

olho e não quero ver

pupilas brancas de medo

a porta aberta espera, os velhos regressaram ao deserto
de horas infindas

“Sim?...”

Estendo os braços para dentro do carro parado
e puxo aquele saco de ossos, olhos semicerrados, boca seca,
tento que movimentos esquecidos
ganhem forma, ganhem força, cravem em mim dedos
de menino envelhecido, de velho de fraldas,
arrastem os pés em metros que parecem quilómetros,

“vamos, pai?...”